Cerveja boa se faz em casa

Garrincha já formou vários ?mestres? cervejeiros em Miguel Pereira

19/08/2016 Culinária

Com curso de um dia, Garrincha já formou vários “mestres” cervejeiros em Miguel Pereira, e pode-se dizer que a fabricação de cerveja é tão antiga quanto a atual civilização. Foi através da escrita dos hieróglifos ou caracteres cuneiformes, que os historiadores conseguiram traçar as raízes da cerveja ao antigo Egito e às tribos Sumérias.

No império Babilônico, Hamurabi criou diversas leis e códigos, e entre eles, uma lei que previa o pagamento de funcionários com cerveja, de acordo com a posição social do mesmo. Outra lei previa a morte por afogamento para quem diluísse a cerveja ou alterasse o volume dos recipientes para ter lucro. A coisa era séria por lá.

Na vastidão do império romano, a cerveja correu o mundo, se popularizou e diversificou, entretanto, sem muita qualidade. No século XVI colocavam tanta porcaria na “breja”, que o Duque da Baviera instituiu um dos maiores eventos regulatórios da história da cerveja; a criação do Reinheitsgebot.

A lei da pureza alemã (Reinheitsgebot) foi promulgada em 23 de abril de 1516 pelo Duque Wilhelm IV da Baviera, e basicamente regulamentava que a cerveja somente poderia conter os seguintes ingredientes: malte, lúpulo, água e obviamente fermento. Considerada como uma das mais antigas regulamentações de defesa do consumidor, protegia os compradores no sentido de que a cerveja comprada não teria nenhum outro aditivo ou componente “estranho” ou “exótico”.

A cerveja encontrou então todo o seu esplendor. A mistura criativa das variantes desses quatro elementos desvendou sabores, aromas, corpo e cor inusitados, dando um incrível salto de qualidade. Até hoje algumas abadias, principalmente as Trapistas, na região da Bélgica, produzem preciosidades dignas do próprio Duque da Baviera.

O mundo foi girando, vieram as grandes descobertas, as colonizações, a revolução industrial e por fim a globalização. As coisas foram mudando e a cerveja também. Ficou industrializada, globalizada e aditivada, ou melhor, “adjuntada”. Adjunto é o termo técnico de cereal não maltado (arroz/milho) que é incluído na composição da maioria das cervejas, em substituição ao malte de cevada (a legislação brasileira permite em torno de 45% de cereal não maltado na composição da cerveja). Nada contra nossa loura gelada, refrescante, leve, mas existem mais coisas entre a garrafa e o copo do que a nossa vã filosofia possa imaginar. A BJCP (Beer Judge Certification Program) tem catalogados mais de 120 estilos (tipos) de cerveja, tanto de baixa fermentação (lagger) tais como a pilsen, vienna, bock, etc, quanto as de alta fermentação (ales), como a pale ale, IPA, STOUT, etc, cada uma delas com características próprias e diferenciadas em sabor, amargor, aroma, cor e teor alcoólico.

Felizmente, em alguns países como a Alemanha e a Inglaterra, por exemplo, a cultura cervejeira artesanal sobreviveu e começou a tomar corpo nas últimas décadas, principalmente na Grã Bretanha e nos EUA.

O movimento aqui no Brasil, e mais especificamente no Estado do Rio, evoluiu a partir da criação, em 2006, da associação de cervejeiros artesanais chamada AcervaCarioca, que tinha e tem como objetivo a divulgação da cultura cervejeira, promovendo eventos, encontros, degustações e cursos de fabricação caseira. As associações foram se multiplicando pelos quatro cantos do país, e hoje, com o advento da internet, o movimento está de vento em popa.

Voltando a 2006, era muito difícil encontrar, mesmo nas lojas especializadas, uma cerveja diferenciada e quando se encontrava, o preço era simplesmente impeditivo, até que conheci, por acaso, um boteco na Praça da Bandeira que tinha uma carta de cerva inimaginável, com preços honestos e o que era melhor, a galera da ACervaCarioca se reunia ali quinzenalmente pra trocar ideias, receitas e degustar as próprias brejas.

Não tive escolha. Fui abduzido por aquele universo de sabores e delícias, me matriculei no próximo curso e virei cervejeiro artesanal.

O movimento da cerveja artesanal no Brasil, apesar de jovem, já conseguiu o feito de ser notado pela cena cervejeira mundial, conquistando medalhas em campeonatos importantes e com participações de cervejarias em alguns dos festivais mais prestigiados do meio.

Desejamos que este movimento continue, para o prazer de todos os apreciadores de uma boa cerveja.

By MC Garrincha