A luta inglória pela paz

Em tempos de armas químicas, exposição em Londres mostra a batalha contra a militarização do planeta

23/04/2017 Planeta Colabora

Parcialmente subsidiado pelo governo britânico, o Imperial War Museum, em Londres, recebe os visitantes como seria de se esperar num lugar dedicado a guerras: com canhões, tanques e caças que já protegeram o Reino Unido em diferentes momentos. O museu está sempre cheio de turistas e estudantes interessados principalmente na história dos dois confrontos mundiais, que afetaram direta e dolorosamente os britânicos. Mas uma exposição montada para celebrar os cem anos da instituição vai na contramão dos aparatos bélicos. “O poder do povo: lutando pela paz” é a primeira mostra já realizada no país para lembrar a trajetória dos movimentos pacifistas, da Primeira Guerra Mundial aos conflitos de hoje.

“O problema não é a corrida armamentista. Nós é que somos o problema. Precisamos parar para pensar no que está errado conosco”

Vanessa Redgrave - Atriz e pacifista

Enquanto o mundo presencia a monstruosidade de mais um massacre na Síria, desta vez com crianças envenenadas por armas químicas, rever a história de pessoas e organizações que lutaram contra a militarização do planeta é emblemático. Mas o que eles conseguiram? É possível parar a guerra? Como o líder sírio Bashar al-Assad deixou claro esta semana, protestos não impedem que exércitos pulverizem, do jeito que bem entenderem, territórios inimigos, enquanto o Afeganistão tampouco pode acreditar que o conflito iniciado há 16 anos esteja perto do fim. A discussão promovida pelo museu londrino evita a utopia e mesmo o romantismo, concluindo que para os que levantam a bandeira do pacifismo o mais importante não é medir resultados concretos, e sim o simples ato de protestar, de ter o direito de levantar a voz, de convocar mobilizações e fazer barulho em nome da paz. Isso nem sempre acontece sem divisões e questionamentos entre os próprios ativistas. É uma história emocionante sobre a qual pouco se sabe e que começa muito antes de o símbolo do flowerpower se espalhar pelo planeta na carona dos hippies, até hoje uma imagem que associamos à ideologia da não-violência.

Entre os britânicos, foco principal da exposição, o pacifismo de forma organizada nasceu em 1916, quando o alistamento militar se tornou obrigatório, em plena Primeira Guerra. Mergulhada numa onda de patriotismo, a Europa via os que se recusavam a combater como criminosos. Uma minoria se recusou a ir para o front ou a ajudar nos esforços de guerra por motivos religiosos ou morais e, pela primeira vez, foi classificada como “objetores da consciência”, definição que podia levar um cidadão à cadeia. Seis mil homens foram presos e chamados de covardes pela imprensa da época, totalmente favorável ao confronto. Um círculo restrito de artistas aderiu, usando pinturas, prosa e poesia para retratar a destruição que pouca gente estava disposta a enxergar em meio ao fervor patriótico. O soldado e poeta Siegfried Sassoon foi enviado a um hospital psiquiátrico depois de publicar poemas questionando o sentido da batalha. Aos olhos da época, ele só podia estar louco.

A exposição reúne algumas dessas obras, assim como imagens históricas de ativistas que apoiaram o então incipiente pacifismo, entre elas algumas das líderes sufragistas, as mulheres que no início do século passado exigiram o direito de voto feminino. Mas também foram poucas. O movimento se juntou aos esforços de guerra.

Com a destruição sem precedentes deixada pelo conflito, a resistência a confrontos militares naturalmente cresceu, embora pouco tempo depois a Europa já estivesse atolada em outra era de devastação, deflagrada por Hitler. O dilema dos que foram contra a Segunda Guerra, mesmo sabendo que a máquina militar da Alemanha precisava ser destruída, é um dos pontos mais interessantes da mostra. O que era pior? A guerra ou o nazismo?

O confronto anterior abrira um precedente e os objetores da consciência já não enfrentavam necessariamente a prisão, podendo optar por trabalhos voluntários. Os curadores reuniram depoimentos de pessoas que rejeitaram o serviço militar por ser contra os seus princípios (ao todo foram 60 mil homens no Reino Unido). “Não havia dúvidas sobre a bestialidade de Hitler. Era muito difícil para mim pensar nas coisas assombrosas que ele estava fazendo, na perseguição aos judeus”, conta o inglês Sydney Carter, que rejeitou o alistamento militar. “A teoria à qual me apeguei foi a de que o pacifismo era uma questão de vocação, onde quer que você estivesse. Para alguns, o certo era ser pacifista e, para outros, não. Nunca estive completamente seguro da minha vocação”, admitiu ele, que mesmo assim ficou contra a guerra.

E então o mundo chegou à Guerra Fria, quando a ameaça nuclear passou a ser o foco principal dos movimentos pela paz, fortalecidos pelo sofrimento causado pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki que encerraram a Segunda Guerra no Pacífico. A campanha pelo desarmamento nuclear se espalhou e, nos anos 60, se juntou aos protestos contra a guerra do Vietnam, outro momento crucial das manifestações populares pela paz. Cartazes e buttons criados por artistas pop invadiram Londres em diferentes marchas que pediam “empregos e não bombas”. Foi então que nasceu um dos símbolos mais definitivos do pacifismo: o “V” invertido dentro de um círculo cortado ao meio, desenho criado pelo designer britânico Gerald Holtom. A Guerra Fria acabou com a desintegração da União Soviética, mas as superpotências continuaram desenvolvendo suas armas.

Na década de 90, a própria Europa ignorou as lições da Segunda Guerra e viu os Bálcãs explodirem, com a retomada do fantasma da limpeza étnica e de campos de concentração na ex-Iugoslávia. Os pacifistas não desistiram e no início do século ganharam força em sua campanha contra a guerra no Iraque (2003-2011), encabeçada pela aliança entre os EUA e o Reino Unido. Tony Blair, o então primeiro-ministro britânico, repetiu o discurso do presidente americano George Bush de que Saddam Hussein era uma ameaça para a segurança mundial e enviou tropas a Bagdá, decisão hoje considerada desastrosa. Dois milhões de pessoas saíram às ruas de Londres em fevereiro de 2003 para dizer não à invasão, mas Blair não ouviu. Foi o maior protesto da história da capital.

Fotos, documentos, slogans, canções e vídeos compõem essa parte contemporânea da exposição, que termina com depoimentos de pacifistas notórios fazendo uma reflexão corajosa sobre a validade de seu idealismo num mundo cada vez mais distante da paz. Basta pensar na Síria. “O problema não é a corrida armamentista. Nós é que somos o problema”, admite a atriz Vanessa Redgrave, tão conhecida por seu talento quanto por seu ativismo. “Precisamos parar para pensar no que está errado conosco”, resume ela.