Manoel Congo

Paty do Alferes a Caminho do Bicentenário - XII

13/10/2018

De acordo com as estatísticas divulgadas no interregno 1837-1840, entre os séculos XVIII e XIX o maior percentual de negros africanos transportados para o Brasil atrelava-se a homens mais jovens e saudáveis nascidos em variadas regiões da África. De fato, os números mostram que, durante esses três anos, 73,7% eram do sexo masculino, com destaque para aqueles que apresentavam idade na faixa de 15 a 40 anos. Tais escravos eram os preferidos e logicamente os mais valiosos, visto que os trabalhos em fazendas, lavouras e engenhos consistiam em derrubadas de matas, plantações, construção de casas grandes, capinas e cuidados com as criações de animais, serviços diários e estafantes que exigiam grande vigor físico. Todavia, apesar das ameaças e dos castigos impostos pelos grandes senhores e seus implacáveis capatazes, os africanos eram sempre olhados com desconfiança e até mesmo temidos por eventuais rebeldias em função do seu desconhecimento quanto à língua, aos costumes portugueses e brasileiros, à religião estranha, à alimentação pouco nutritiva e, principalmente, em relação à crueldade do homem branco.

O capitão-mor Manuel Francisco Xavier era um rico proprietário que administrava com mão de ferro três enormes fazendas em Paty do Alferes: Freguesia (atual Aldeia de Arcozelo), Maravilha e Santa Tereza, além do sítio da Cachoeira. Casado com Francisca Elisa Xavier (ou Maria Elísia Xavier, segundo alguns autores), teve sob seu comando um negro forte, habilidosos, de pouca fala e sorriso escasso chamado Manoel Congo. Provavelmente chegado ao Brasil nas décadas iniciais do século XIX, logo ao desembarcar foi apresentado no cais da Praia do Valongo (atual Praça XV), tendo sido de pronto adquirido por Manuel Francisco Xavier e trazido para prestar serviços nas três fazendas daquele escravagista.

Como era comum entre os escravos nascidos na África, seu nome era composto por um prenome português associado ao antropônimo de sua "nação" ou região de origem, nesse caso o Congo. Manoel era ferreiro, ofício que requeria treinamento e destreza, o que certamente lhe conferia superioridade sobre outros escravos e maior valor econômico perante seus senhores. Dotado de grande espírito de liderança, corajoso e decidido, Manoel promoveu uma fuga audaciosa na noite de 6 de novembro de 1838, conduzindo mais de duas centenas de fugitivos ? entre homens, mulheres e crianças ? em direção à Serra de Santa Catarina (na linha limítrofe com Petrópolis), onde pretendia instalar um quilombo.    

No ofício datado de 13 de novembro de 1838 a Paulino José Soares de Souza, então Presidente da Província do Rio de Janeiro, o Juiz de Paz de Vassouras - José Pinheiro de Souza Werneck - solicitou imediatas providências para a captura dos rebelados, que foram então duramente perseguidos e aprisionados pelo barão de Paty (Francisco Peixoto de Lacerda Werneck) após intensa refrega nas matas adjacentes a Paty. Entre os mais importantes líderes do movimento, encontravam-se também Miguel Crioulo, Belarmino Congo, Afonso Angola, João Angola, Adão Benguela, Epifânio Moçambique, Canuto Moçambique. Antônio Magro, Pedro Dias e Justino Benguela, além de Mariana Crioula, Rita Crioula, Lourença Crioula, Brígida Crioula, Joana Mofumbe, Josefa Angola, Emília Conga, Balbina Congo e Manoela Angola.

A propósito, Mariana Crioula era uma escrava nascida no Brasil, com cerca de 30 anos na época. Era costureira e mucama (escrava de companhia) de Francisca Elisa Xavier. Foi descrita como sendo uma "preta de estimação", assim como uma das escravas mais dóceis e confiáveis da sua patroa, o que certamente a livrou da morte por enforcamento.

Julgado em Vassouras, Manoel Congo foi condenado à forca, subindo ao patíbulo em 6 de setembro de 1839. Casado com a negra Balbina Conga, Manoel deixou uma filha de nome Concórdia.

Os demais revoltosos receberam como pena 650 açoites cada um, dados cinquenta por dia, na Forma da Lei. Quanto às demais mulheres, também acabaram por ser absolvidas, talvez por interferência de D. Francisca Elisa Xavier, que tinha por elas grande apreço.

A gruta usada por Manoel Congo e seus companheiros como esconderijo não passa de uma profunda e escura escavação natural formada por um conjunto de grandes pedras graníticas em um dos outeiros da Serra de Santa Catarina. De acesso complicado, cansativo e com espaços reduzidos, custa crer que tantos negros tenham conseguido se reunir em um ambiente tão rude e exíguo. De qualquer forma, aquilo significava para eles a tão desejada liberdade e o fim de sofrimentos físicos absurdos. Existe no local uma placa indicativa, mas como o sítio se encontra em terras particulares, deve-se sempre procurar autorização dos seus proprietários para uma visita à gruta. Para alcançar o local, basta tomar a estrada para Palmares, a partir do centro de Paty do Alferes, e após aquela localidade percorrer mais alguns quilômetros pela chamada Estrada do Imperador. O piso é de terra batida, porém firme e perfeitamente adaptável a qualquer tipo de veículo.