Fazenda Florença, Conservatória, Valença

Sem sombra de dúvida, a família Teixeira Leite foi uma das maiores responsáveis pelo desenvolvimento da região Sul Fluminense

29/03/2019 Historiador Sebastião Deister

Sem sombra de dúvida, a família Teixeira Leite foi uma das maiores responsáveis pelo desenvolvimento da região Sul Fluminense, financiando amplas plantações de café e colaborando para o desenvolvimento social, cultural e econômico de várias localidades da região, em especial aquelas ligadas a Vassouras.

Dentre os irmãos, filhos e sobrinhos dos barões de Ayruóca (Custódio Ferreira Leite) e Itambé (Francisco José Teixeira), Anastácio Leite Ribeiro (1787 - 1813) adquiriu duas sesmarias que delimitavam diretamente com a sesmaria dos índios Araris, no chamado "Conservatório de Santo Antônio do Rio Bonito". Baseando-se em tal título, Anastácio então fundou a Fazenda São José do Rio Bonito, cuja sede muito bem localizada ainda existe nos vales esverdeados do Distrito de Conservatória, em Valença.

Do seu casamento com Maria Esméria Leite Ribeiro nasceram os filhos Maria Esméria Teixeira Leite (que viria a ser a primeira esposa de Francisco José Teixeira Leite, o barão de Vassouras, ambos fundadores da Fazenda Cachoeira Grande), João Ferreira Leite, Joaquim Leite Ribeiro (que chegou ao cargo de Juiz em Conservatória), Francisco Leite Ribeiro (que depois da morte dos pais herdou as fazendas São José e Boa Vista), Mariana Cândida (que se casou com seu primo Francisco Leite Pinto, indo posteriormente o casal administrar uma fazenda em Mar de Espanha), Custódio Ferreira Leite, Maria Francisca Leite, Anastácio e finalmente José Leite Ribeiro. O último, após a morte dos pais, fundou a fazenda Florença.

A propriedade é um dos mais belos exemplares da arquitetura neoclássica dos anos oitocentos, tendo como particularidade marcante o alpendre com frontão específico, detalhe arquitetônico bem raro no vale do café. De fato, ostentando forte influência italiana, a bela varanda é encimada por um frontão sustentado por colunas de madeira trabalhada, sendo as mesmas apoiadas em vigorosos pilares de cantaria com gradis de ferro entre eles.

O casarão foi projetado no formato da letra U, apresentando como detalhe elegante um pequeno pátio central. Toda a obra recebeu uma base de pedra e um piso de peroba do campo. Por seu turno, o alpendre, as pestanas das janelas e os adornos das colunas das paredes externas receberam detalhes decorativos no estilo neoclássico, ao passo que as paredes internas foram todas erguidas com adobe, material muito empregado no século XIX.

Sua entrada é marcada por uma portada de execução recente. Algumas centenas de metros depois, chega-se a uma murada frontal, com um portão de acesso que leva a uma pequena, porém robusta ponte, construída em arco pleno de pedra que vence um pequeno riacho. Palmeiras imperiais, plantadas recentemente, compõem a ambiência imediata, que tem, ao fundo desta paisagem, a casa-sede.

As dependências de um hotel ocupam grande parte da antiga área de trabalho da fazenda, com edificações que privilegiam a escala humana e a dominância horizontal, adequando-se melhor ao conjunto histórico remanescente. A casa grande fica locada à direita e as demais construções do complexo se espraiam para a esquerda. A que mais se destaca é a capela, devotada a São José que, mesmo sendo uma reinterpretação recente da arquitetura religiosa colonial, concorre para a valorização do entorno.

O bloco longitudinal, de quartos, implantado ao centro e perpendicular à casa-sede, fica no local das antigas senzalas, segundo informações de um antigo colono da fazenda prestadas ao atual proprietário.

Na extremidade esquerda, localiza-se o bloco da antiga tulha, hoje adaptado para funcionar como restaurante do hotel. Bem junto dele há uma roda d'água, cujo sistema de captação ainda funciona. Próxima à casa grande, mais ao fundo, pela lateral direita, existe outra tulha, com porão adaptado para adega. Ao redor da casa restaram algumas partes de uma antiga murada de pedra, com um pórtico de entrada, que pode ter servido, no século XIX, para delimitar o perímetro do casarão.

As esquadrias mantêm folhas duplas almofadadas pintadas em azul, sendo que, nas janelas, ao se dobrarem, logo estancam embutidas na parede. Guarnecem-nas, externamente, guilhotinas em caixilhos de vidro, pintadas na cor branca.

Internamente, as esquadrias das janelas que se abrem para o pátio interno em forma de U possuem folhas de veneziana. Já as portas conservam vergas, umbrais e folhas de abrir na cor azul, além de bandeiras na cor branca.

A cimalha que contorna todo o prédio é recente, executada em madeira lisa, na cor branca, com friso ao centro, inclinada a 45º em relação à fachada, configurando, na área do alpendre, uma arquitrave que suporta o frontão triangular. O telhado, de elevado ponto, coberto em capas e bicas, finaliza elegantemente a composição.

José Ferreira Leite viveu até 1861, mas seus herdeiros permaneceram administrando a fazenda até o final do século XIX. Em princípios do século seguinte foi comprada pela família de Lupércio de Castro.

Atualmente, a Florença está sob administração do Dr. Paulo Roberto, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras e do Instituto PRESERVALE. Inteiramente dedicado à História do Vale do Paraíba, ele promove, periodicamente, um admirável sarau que retrata a vida e os feitos dos barões (especialmente do único nobre negro do Vale, o barão de Guaraciaba) e dos escravos da região com música e vestimentas típicas de época.