Fazenda do Governo, hoje Fazenda Maravilha (Paraíba Do Sul)

Em 22 de março de 1723, Jorge Pedroso de Souza, coronel do Regimento de Ordenanças da Vila de Paraty, obteve uma sesmaria no Sertão da Parahyba

19/04/2019 Historiador Sebastião Deister Edição 238

Em 22 de março de 1723, Jorge Pedroso de Souza, coronel do Regimento de Ordenanças da Vila de Paraty, obteve uma sesmaria no Sertão da Parahyba, logo repassando-a para o capitão José da Costa Almeida por escritura de 14 de agosto daquele ano. Este, e sua mulher Maria Ribeiro, venderam tais terras ao governador Aires de Saldanha e Albuquerque Coutinho Matos Noronha em 16 de agosto de 1728, representado então pelo procurador José Ferreira da Fonte, que, em 1703, fundara a fazenda batizada como Secretário, título de seu cargo e origem de um distrito de Petrópolis. Aires Saldanha, governador e capitão-general do Rio de Janeiro, titulou a sesmaria como Fazenda do Governo em função de seu cargo. Entretanto, Aires doou metade da propriedade à Santa Casa de Misericórdia da Corte, mas pela escritura de 11 de julho de 1741 a Santa Casa vendeu sua parte ao Dr. Manoel Corrêa Vasques. Poucos meses depois, Pedro Dias Paes Leme tornou-se dono da Secretário por compra efetuada em 21 de setembro de 1741, negociando-a com Caetano Borges da Costa e esposa em 7 de abril de 1750. Com a morte de Caetano Borges da Costa, sua viúva casou-se com Manoel José Dias, e em 5 de dezembro de 1792 vendeu sua parte a dois genros seus, o sargento-mor Antônio José da Cunha e o capitão Antônio José da Costa Barbosa.

Antônio José da Costa Barbosa tornou-se, então, dono de toda a Fazenda do Governo. Depois de seu falecimento, a propriedade passou para as duas filhas, cabendo uma seção de terras a Pulicena Augusta, casada com o espanhol José Antônio Linhares. Esta parte, que compreendia a sede da fazenda, mais tarde passou a se chamar Fazenda do Governo Velho. O outro quinhão foi passado à filha Francisca Cândida, casada com o Dr. Luís Nicolau Favre, casal que construiu então o prédio da Fazenda do Eremitório, em cujo interior se destacava uma rica capela que recebia regularmente missas e outros rituais católicos sempre assistidos por escravos e vizinhos da propriedade. O Dr. Luís Nicolau Favre era um suíço formado em ciências físicas e naturais. Depois de sua morte, a viúva Francisca Cândida esposou o Dr. Joaquim Antônio Pereira da Cunha em 4 de outubro de 1847, advogado e inventariante do espólio, o qual se tornou, assim, o décimo proprietário da Fazenda do Governo. Acredita-se que eles conferiram à fazenda o seu aspecto atual, com destaque para muitos elementos do século XVIII. Por essa época, a grande fazenda foi visitada por viajantes ilustres, entre eles Charles de Ribeyrolles, memorialista e político francês, e o Conselheiro José Saldanha da Gama, da Escola Politécnica. Por lá também passou Auguste François Marie Glaziou, botânico francês responsável por significativos trabalhos no Brasil, entre eles a modernização paisagística do Passeio Público do Rio de Janeiro e a implantação de belos jardins em algumas fazendas de café. O Dr. Joaquim também se envolveu com a política, sendo vereador em várias legislaturas. Mais tarde, porém, teve de vender a tradicional fazenda para pagar uma dívida hipotecária aos herdeiros do barão de Diamantina, Francisco José de Vasconcelos Lessa.

O casal não deixou descendentes. Francisca Cândida faleceu em 22 de agosto de 1863. Ainda no período em que a fazenda pertencia ao Dr. Joaquim Antônio Pereira da Cunha, mais precisamente em fevereiro de 1848, durante a excursão de D. Pedro II à região, a Fazenda do Governo recebeu o Imperador para almoçar. Prosseguindo viagem, D. Pedro II pernoitou na vila de Paraíba do Sul, na Fazenda da Boa Vista, do coronel João Gomes Ribeiro de Avelar. Por outro lado, Governo foi retratada em 1858 pelo francês Victor Frond, o primeiro estudioso do Vale a registrar a vida dos escravos no Brasil através da fotografia.

Matias Bernardino Alexandre foi o undécimo proprietário da Fazenda do Governo. Ali desenvolveu grande atividade, aumentando significativamente seu pecúlio e tornando-se protetor de todos os seus vizinhos. Graças a seu prestígio, foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo em 1873. Depois de sua morte a fazenda passou a pertencer a seus sobrinhos, naturais da Polônia. Esses foram os duodécimos proprietários da Fazenda do Governo, mas por apenas dois anos (de 1879 a 1880).

O Dr. José Gonçalves Viriato de Medeiros foi o décimo terceiro proprietário da Governo, entre 1880 a 1896.  Casado com Sara Blackall, o cearense José Gonçalves mudou o nome da fazenda para Sobral, cidade onde nascera. Do matrimônio vieram ao mundo três filhos: Eugênia (casada com o Dr. Antônio José Miranda Carvalho), Armando e Ester. Antônio José de Miranda Carvalho era um médico sul-paraibano de origem mineira, tendo sido também presidente da Câmara de Paraíba do Sul. Com sua morte, ocorrida em 1940, ele passou a Fazenda do Eremitório a seus filhos, que por seu turno, venderam-na em 23 de março de 1954 a Milton de Souza Carvalho. Este, então, dividiu a área em mais de cem sítios e lotes com áreas prontas para qualquer construção, batizando tal loteamento como Parque Maravilha.

Um dos sítios do loteamento foi vendido, em 26 de fevereiro de 1957, a José Ramos Carlos, que o negociou, em 5 de maio de 1961, com Antônio Esteves dos Reis, mesmo tendo prometido vendê-las a Moacyr Nogueira Pereira. Segundo a tradição oral da região, Moacyr Nogueira Pereira, por se considerar legítimo possuidor, transferiu sua posse a Antônio Nogueira, no período entre 1959 e 1960. Antônio Nogueira devastou centenas de árvores para vender madeira e demoliu o prédio do antigo engenho de açúcar, razão pela qual seu nome é pessimamente lembrado na região paraibana.

Antônio Esteves dos Reis vendeu seu sítio, em 16 de janeiro de 1960, a Altamiro Figueira, sua mulher Anair Gabriel Figueira e a três filhas casadas, cabendo a cada uma a quarta parte da propriedade. Altamiro Figueira e sua mulher já haviam adquirido do espólio de Milton de Souza Carvalho a parte restante da propriedade - na realidade, a maior parte - com 1.923.570 m2, resultado da aglutinação de vários sítios.

Por escritura de 3 de janeiro de 1975, Altamiro Figueira e sua mulher venderam o sítio com a sede para a atual proprietária. A usina de força hidráulica, ainda existente e funcionando, foi construída por Milton de Souza Carvalho e filhos, na década de 1950, quando loteou a propriedade, aparentemente com o objetivo de suprir todo o loteamento com energia constante. No Brasil colônia, um velho casarão local talvez tivesse sido sede da Fiscalização da Pesagem de Ouro (Paraíba do Sul era um ponto estratégico para a saída de ouro de Minas Gerais). Miranda Carvalho transformou o pavilhão em colégio, mas Altamiro montou ali um curral. O referido pavilhão foi restaurado pela atual proprietária (Maria Beltrão), visando a restabelecer o seu provável aspecto original. A Fazenda do Governo hoje é conhecida pelo nome de Fazenda Maravilha.

Na próxima edição: Bela Aliança (Barra do Piraí)