Uma cannabis está entrando na indústria da moda

Planta da mesma espécie da maconha, mas com ínfima substância psicoativa, o cânhamo começa a virar alternativa ao algodão nos Estados Unidos

27/09/2019 Planeta Colabora Edição 261

Cerca de 25% da terra agricultável dos EUA é ocupada por plantações de algodão. Do total da colheita, 75% é usado para a fabricação de roupas. Isso representa um sério risco ambiental. O algodão é plantado como monocultura e o plantio repetido degrada o solo, fazendo com que a terra se torne estéril com o tempo. E, como o algodão hoje é geneticamente modificado, produz uma enzima que permanece no solo, diminuindo a biodiversidade.

Agora a indústria da moda parece ter encontrado uma saída: o uso de cânhamo, cujo cultivo é, enfim, permitido em vários estados americanos. Aprovação da Farm Bill nos Estados Unidos, em 2008, é um sinal claro do fim da conotação da planta como droga, e ainda uma evidência de seu poder comercial não apenas no fabrico de têxteis, mas ainda de plásticos, papel e dezenas de outras utilidades. A lei retirou o cânhamo da lista de substâncias controladas, onde se encontrava desde 1970. Entendeu-se o óbvio: cânhamo, apesar de ser uma planta da mesma espécie - a cannabis - não é a mesma coisa que maconha.

A planta foi proibida no Brasil em 1938 no governo de Getúlio Vargas. Foi cultivada pela Coroa Portuguesa entre 1740 e 1824 e no período de 1880 a 1938 houve muitas tentativas da iniciativa privada. O cânhamo contém não mais que 0,3% de THC (tetrahidrocanabinol), a substância psicoativa da maconha; esta tem tipicamente de 5% a 20% de THC. Ou seja, cânhamo não dá barato, embora as duas plantas pertençam à mesma espécie e gênero.

Este novo setor da economia poderá valer US$ 13,03 bilhões de dólares até 2026, avalia a consultoria Reports and Data. Uma forte sinalização desta magnitude vem da tradicional Levi Strauss que, neste ano, em parceria com a Outernown, lançou uma jaqueta com uma mistura de 69% de algodão e 31% de cânhamo. Segundo Paul Dillinger, vice-presidente da empresa, este é um processo de pesquisa que vai durar anos, e não servirá a apenas o necessário para produtos de nicho. Com isso, tecidos 100% cânhamo, que tem a mesma sensação do algodão, estarão disponíveis em massa.

Dillinger diz que a necessidade de uma alternativa ao algodão se torna aparente quando se trata de seu consumo de água relativa ao do cânhamo. A Levi Strauss descobriu essa tecnologia de ponta em pesquisas na Europa, onde o cultivo é legal em muitos países. "Vamos achar um modo de fazer uma roupa que não utilize 3.780 litros de água, 2.544 deles apenas no processo do cultivo. Usaremos um terço disto, é uma economia e tanto", afirma. No entanto, esta revolução não irá ocorrer da noite para o dia. "Mas há uma vantagem clara: com muita frequência, os consumidores acham que comprar um produto sustentável envolve um sacrifício, e a escolha é entre algo feito eticamente ou algo que é apenas bonito. Neste caso, não é necessário sacrifício". Novas tecnologias trazem ganhos na utilização.

 

Em 1880, uniformes para mineradores eram 100% cânhamo

 

Mas os primeiros jeans fabricados pela Levis Strauss nos anos 1880 para os mineradores de ouro na Califórnia eram feitos totalmente de cânhamo. O impacto não será apenas na moda. Fabricantes de automóveis, como Mercedes Benz e Porsche, estão usando fibra de cânhamo em modelos de luxo - Henry Ford já havia construído um carro todo com o material em 1941, o que dá ideia de seu potencial.

A empresa australiana Zeoform usa cânhamo em uma série de produtos, como pranchas de surf, mobília de plástico e substitutos do plástico rapidamente biodegradáveis para produtos descartáveis. Na Europa, a Kanesis, baseada na Sicília, faz um termoplástico usado em impressoras 3D.

O cânhamo proporciona duas colheitas por ano, e pode ser usado para a limpeza de efluentes de usinas de tratamento de esgoto. Pode ser plantado em terra contaminada por metais pesados, sem perda de segurança, e usa muito menos pesticidas que o algodão.

A planta representa um ideal quando se pensa em um material para diversos fins. Os galhos servem como fibra e biomassa - da qual podem resultar biocombustíveis, as sementes fornecem alimento de boa qualidade para humanos e animais e as folhas não utilizadas são deixadas no solo após a colheita, melhorando sua taxa de carbono. Além disso, não é necessário a semeadura profunda, o que protege sua estrutura e umidade.

As sementes são ainda um produto promissor como um substituto vegano como fonte de Ômega 3, 6 e 9 e estão aparecendo em uma ampla gama de cosméticos e produtos de uso pessoal. A soja, por exemplo, contém muitos menos do aminoácido.

E, com todas as suas credenciais ambientais, o cânhamo se torna cada dia mais importante para a salvação do planeta.


Foto 1 - Plantação de cânhamo, espécie de cannabis, que vem sendo cada vez mais usada na indústria da moda e é ambientalmente mais sustentável do que o algodão (Foto: Julien Mattia/NurPhoto/AFP)