#RioéRua: Melancolia pré-carnavalesca no Catete

Caminhos do pensamento levam até um bairro cheio de história que merecia melhor tratamento

21/02/2020 Planeta Colabora Edição 282

Horas na sala de espera do hospital e lembro, por razões que não cabem aqui contar, de meu pai, que foi embora há oito anos. Dou um Google no nome completo dele: aparece pouca coisa, a mais significativa é o encontro de amigos do Banco do Brasil. Nas variações sobre o nome, aparece um Oscar José de Almeida, violonista e compositor - sem parentesco com os Valporto - integrante do Ameno Resedá, mais famoso rancho das primeiras décadas do século passado. Os ranchos eram grupos carnavalescos com instrumentos de sopro e percussão; o Ameno Resedá - ameno pelo tom da música e resedá em homenagem a uma flor de Paquetá, onde surgiu a ideia do rancho - nasceu em 1907 e consta que foi o primeiro a fazer desfiles temáticos, o que o leva a ser apontado como um precursor dos enredos das escolas de samba.

Estamos às vésperas do Carnaval e o Ameno Resedá foi fundado num 17 de fevereiro, 113 anos atrás. Foram esses os caminhos que me levaram ao Catete: a sede do rancho ficava na Rua Correia Dutra e existe, agora, um Casarão Ameno Resedá, casa de shows e eventos em imóvel secular, onde em 2018 houve o lançamento da camiseta Imprensa que Eu Gamo, bloco de jornalistas em que desfilei dias antes da sala de espera do hospital me levar a meu pai, ao compositor e ao rancho.  Existia, na verdade: descubro que o estabelecimento fechou no fim do ano, engolido pela crise - o casarão continua lá embelezando a esquina das ruas Pedro Américo e Bento Lisboa.

Com a imagem do casarão na cabeça, andar pela Rua do Catete vira um passeio melancólico pela imaginação de como o bairro - e muitas partes desta cidade - poderia ser.  Os imóveis dos hotéis Imperial, de 1876, e Riazor, de 1891, seriam especialmente charmosos com uma reforma na fachada - as duas ainda bem preservadas - e um trato interno. Há outros sobrados centenários espalhados pela rua principal, herança do tempo em que o Palácio do Catete era o centro do poder da república no antigo Distrito Federal. O Carson's Hotel, quase em frente ao Palácio, foi construído em 1875, e foi trocando de nome e proprietário até a década de 50; na minha infância, já era a loja de móveis A Renascença, a mais chique da área. O imóvel ainda está lá, restaurado pela Leader, que garante o bom estado da fachada - apesar de uma placa horrorosa - e preserva dentro da loja um bebedouro de animais da construção original.

Só na Rua Catete há pelo menos 34 imóveis tombados pelo IPHAN para preservar o conjunto arquitetônico no entorno do Palácio do Catete - quase todas construções da segunda metade do século XIX, com os anos marcados na fachada: 1887, 1896, 1897, 1904. A delegacia fica num prédio tombado de 1909. O atual Museu da República - construído como residência do Barão de Nova Friburgo em 1867 - e seus jardins são um exemplo de preservação. Mas a maioria dos sobrados e imóveis antigos não teve a mesma sorte. Há sobrados abandonados, fachadas ocupadas por todo tipo de cartazes e alguns imóveis em ruínas - entre eles, um dos mais antigos, o prédio de 1822 que abrigou a Universidade do Distrito Federal, origem da UERJ, e que por 20 anos (a partir de 1983) foi sede da UNE (União Nacional dos Estudantes), que teve seu prédio na Praia do Flamengo incendiado após o Golpe de 1964.

Seria de todo melancólico o passeio se não fosse véspera de Carnaval: a conversa no Bartman - boteco moderninho em homenagem ao homem-morcego da TV e outros símbolos pop - é sobre ensaio e desfile do Cartola é do Catete, bloco em verde e rosa que homenageia o compositor. Cartola nasceu Agenor de Oliveira no Catete, na Rua Ferreira Viana: só com 11 anos mudou-se para o Morro da Mangueira. Pelo papo na mesa ao lado, são mais três ou quatro blocos no bairro - Amigos do Catete, Senta que Eu Empurro, Bambas do Catete, Balança Meu Catete - além do vizinho Largo do Machado mas não Largo do Copo.

É possível desfilar melancolia às véspera do Carnaval, ainda mais neste momento de espera no hospital e maus tratos com a cidade: Pixinguinha morreu num 17 de fevereiro - num carnavalesco sábado de desfile da Banda de Ipanema; Ary Barroso, de Aquarela do Brasil e No tabuleiro da Baiana, foi embora no domingo de Carnaval de 1964; um enfarte levou o grande Alfredinho do Bip Bip no sábado do Carnaval passado. Mas, nem por isso o Rio mudou de tom: a Banda de Ipanema ficou tocando Pixinguinha em frente à igreja onde ele morreu e ainda toca Carinhoso em todos os desfiles; as escolas de samba homenagearam Ary na Presidente Vargas, particularmente o Império Serrano, que desfilava com sua Aquarela Brasileira em homenagem à música do compositor; o velório de Alfredinho foi com samba, trilha sonora do seu Bip Bip. Vamos seguir, cariocamente, adiante.

 

Foto 1 - Imóvel secular reformado e de portas fechadas: Casarão Ameno Resedá, estabelecimento para shows e eventos, engolido pela crise. (Foto: Oscar Valporto)

 

Foto 2 - Fachada do Hotel Imperial: imóvel de 1876 tombado pelo IPHAN no Catete. (Foto: Oscar Valporto)

 

Foto 3 - Os jardins do Palácio do Catete, erguido em 1867; hoje Museu da República e área de lazer do bairro. (Foto: Oscar Valporto)

 

Foto 4 - Delegado de polícia em prédio tombado: só na Rua do Catete, são mais de 30 imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico. (Foto: Oscar Valporto)

 

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