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Roraima importa farinha de mandioca

E a Amazônia tem que importar etanol de São Paulo

Edição: 504
Data da Publicação: 14/06/2024

O Brasil tem, sim, o desfio de proteger a floresta, de proteger o meio ambiente, de proteger as águas, de proteger a fauna, de proteger a flora, mas, ao mesmo tempo, tem o desafio de produzir alimentos, porque não se pode, por exemplo, conceber que Roraima seja importadora de farinha de mandioca, que é uma cultura tradicional indígena. Não se pode imaginar que a Amazônia tenha que importar etanol de São Paulo ou de outro lugar porque não pode produzir cana-de-açúcar. Na verdade, isto é uma espécie de colonialismo que o mundo e que uma parte do Sul e do Sudeste do Brasil querem exercer na Amazônia. Não se pode aceitar essa lógica.

Europa

A Europa, antes de reclamar alguma coisa do Brasil, deve providenciar uma legislação tão protetiva e restritiva do meio ambiente como a que nós temos aqui. Recentemente, houve uma rebelião de agricultores na Europa porque a União Europeia queria estabelecer uma legislação segundo a qual a Reserva Legal fosse de 4%. Na Amazônia, a Reserva Legal é de 80% e no Sudeste 20%.

Matriz energética do Brasil e da Europa

Primeiro, a Europa deveria fazer a transição energética que nós fizemos. Enquanto nós só usamos 20% de nossa matriz energética com combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão), eles usam 80%. Então, que gente é essa que ainda financia ONGs para achacar os produtores brasileiros. Isso não se pode aceitar. O Brasil fez sua transição energética, tem a legislação mais rigorosa e é quem mais preserva a floresta dentro e fora da propriedade. Onde está a Amazônia deles? Não têm. Nós precisamos, então, com respeito e com diálogo, mas com posição firme, enfrentar esse debate no mundo. Eles que se expliquem, porque, há 200 anos, eles vêm emitindo CO² com carvão, gás e petróleo; tanto é que esgotaram todas as minas de carvão da Europa e, agora, estão vindo com esse negócio de carro elétrico. O Brasil tem que ter posição altiva. Temos que chegar lá falando grosso, porque nós temos o que apresentar.

Recentemente, o ex-ministro da Defesa, Aldo Rebelo, viu um caso de uma proprietária, mãe solteira com vários filhos, lá em Boca do Acre, no estado do Amazonas, cujo depoimento é comovedor. Estava na roça cuidando do arroz e da mandioca, quando chegaram os filhos: "Mãe tem uns homens armados aí, dizendo que a senhora é bandida, é criminosa". Essa mulher foi levada às barras dos tribunais pelo Estado brasileiro. Ela é uma sobrevivente, conforme relatou: "Minha propriedade vale 30 mil reais, eu recebi uma multa de 60 mil". Ela é tão pobre, que o fiscal que foi entregar a intimação tirou do bolso o dinheiro da passagem para ela ir até o centro de Boca do Acre para dar seu depoimento. Ela teve que andar 10 km a pé. Boca do Acre fica mais perto do Peru do que de Manaus.

Chegamos ao limite. O IBAMA é uma autoridade completamente fora de controle. O presidente do IBAMA declarou que a Amazônia ia ser tratada pela política de comando e controle. No jargão do IBAMA, comando e controle, é autuação, multa e embargo. Isso não é política de meio ambiente e nunca pode ser assim. O Estado brasileiro está perseguindo inocentes e criminalizando a atividade econômica. Proteger o meio ambiente não pode significar a criminalização do produtor.

Para concluir, deixo dois parágrafos do livro "Amazônia", de Aldo Rebelo: "A presença da Amazônia brasileira no salão principal da geopolítica mundial não é ornamental, nem decorativa, muito menos se deve a sua relevância para justas preocupações humanas com o meio ambiente, o clima, o aquecimento global e a emissão de gás de efeito estufa. Na Amazônia, está a mais promissora fronteira mineral do mundo, a mais cobiçada reserva de biodiversidade e as terras mais aptas para a agricultura ainda disponíveis no planeta. Os brasileiros devem estar preocupados com os reais interesses das potências na região e estes interesses estão muito mais relacionados aos nossos bens e não com nosso bem", finaliza Aldo, um dos maiores conhecedores da Amazônia do Brasil.