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Nada é por acaso
A conta do neoliberalismo chegou para o império
Edição: 518
Data da Publicação: 14/03/2025
O declínio norte-americano
começou com a implantação do neoliberalismo. Os executivos chegaram à conclusão
de que transferir uma planta industrial dos EUA para o México ou Ásia era mais
vantajoso. Por exemplo, um trabalhador da Ford, em Detroit, ganhava de 15 a 17
dólares por hora. Pegando essa mesma planta e colocando no Haiti, no México ou
na Ásia a despesa cairia dos 17 para os 5 dólares. E não seria só isso, nesses
países, as indústrias não teriam, entre outros aspectos, que se preocupar com
as leis trabalhistas e ambientais, que encarecem os custos de produção.
Isso funcionou por um certo tempo,
mobilizou capital com lucros imensos, até que surgiu no pedaço uma certa
potência para bagunçar o jogo: a China. Essa crise toda foi acelerada a partir
de 2013, quando Xi Jinping incrementou substancialmente a nova estratégia da
Rota da Seda, que está criando um novo mercado unificado na Eurásia,
desenvolvendo um sistema que une a Europa, América do Sul e a África com a Ásia
a partir da construção de portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias, gasodutos,
petrodutos.
África e América do Sul
Tudo isso está sendo desenvolvido
em uma vasta região, promovendo comércio com trocas de produtos, agregando,
hoje, 53 dos 54 países da África à nova Rota da Seda chinesa. Na América do Sul,
já são 20 países sul-americanos que estão associados a ela. No início dos anos
2000, a China investia na África cerca de 10 bilhões de dólares, hoje, investe
200 bilhões de dólares.
Esse processo criou, no mundo,
uma alternativa ao imperialismo norte-americano, que está levando ao pânico uma
fração da burguesia. O fanatismo pelo dinheiro e a falta de patriotismo, fez
com que desmantelassem suas indústrias, além de não controlarem mais o mercado
mundial. Se você pegar um mapa do mundo para ver qual é o principal parceiro
comercial da maioria dos países, a imensa parcela, inclusive os EUA, tem a
China como o principal parceiro comercial.
Hoje, uma parcela importante da
burguesia dos EUA está perdendo não só o comércio, mas e sobretudo o poder político
em que esse comércio lhe inseria, além de ter desmantelado suas plantas
industriais em solo americano. Agora, está desesperada para reaver sua
hegemonia.
Nada disso está acontecendo de
uma hora para outra. Em 2016, o primeiro ato de Trump foi ter saído do Acordo
de Associação Transpacífico (TPP).
Em 2024, Trump veio com o
discurso de soerguer a indústria nacional norte-americana. Muitos trabalhadores
da indústria despejados, demitidos e que não têm mais emprego enxergaram, hoje,
no Trump uma alternativa de trabalho, e, portanto, votaram em peso. Agora,
porém, já estão vendo o que está acontecendo.
O descontentamento também está
vindo com os trabalhadores da agricultura (que também votaram em peso em Trump).
Os caras estão completamente arrependidos sem saber onde estavam com a cabeça. Só
como exemplo, com o fim da agência USAid (que é um braço da CIA) e que existe
para criar uma "boa imagem" dos norte-americanos e, entre outras coisas
fornecem alimentação, filantropia para os refugiados do mundo, houve o
congelamento de todas as assistências. Somente a comida retida nos portos que ia
embarcar, os agricultores perderam 2 bilhões de dólares em mercadorias
plantadas, colhidas, embaladas e enviadas. Os fazendeiros não sabem o que fazer.
Estão dizendo que vão ter que vender as fazendas para honrar as dívidas, porque
não têm de onde tirar o dinheiro com essa mercadoria parada. E para piorar o
que já estava ruim, Trump cortou os subsídios que Biden deu aos agricultores.
Nos EUA, existe o EPI - Economic Policy
Institute, que é uma espécie de DIEESE norte-americano. O EPI fez um estudo e provou
que o poder de compra dos trabalhadores nos EUA está congelado desde 1978, ou
seja, todo ganho de produtividade que veio com a tecnologia, com a robótica,
linhas de produção totalmente automatizada, nada foi repassado aos
trabalhadores. O EPI disse que, nos EUA, país sede do capitalismo mundial,
existem 60 milhões de norte-americanos que estão vivendo abaixo da linha da pobreza.
Por outro lado
Ao contrário dos EUA, que se
acostumou a conseguir as coisas pela força, saqueando, roubando e matando, a
China não impõe suas normas à base da força. Não está estabelecendo um processo
de ultimatum nem de dominação dos povos com os quais ela negocia. Veja
as ex-colônias francesas que estão se desvencilhando da França por causa das
negociações que estão sendo feitas há anos com a China e Rússia, em que ambas
estão ajudando o continente africano a se descolonizar, dando aos africanos a
condição de manter suas próprias soberanias sobre seus países. Não se sabe o
que a China é hoje, se capitalista ou socialista ou até mesmo alguma coisa que
ainda não sabemos o que é, mas que está chegando. Hoje, tem capitalista na
China? Tem. Tem bilionários? Tem. Tem propriedade privada? Tem, mas o Estado chinês
é quem controla a remessa de lucro ao exterior, o Estado controla a política
monetária; os bancos são estatais; o Estado subsidia o crescimento da indústria
e gera emprego. A China tirou 800 milhões de chineses da miséria e da pobreza extrema.
Fica difícil chamar esse Estado de capitalista. O que é não sei. Aliás, acho
que ninguém ainda sabe.
O que sabemos é que a China está
fazendo o que ela faz há 5000 anos. Quando Jesus chegou a esse mundo, os
chineses já praticavam o comércio há 3000 anos.