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Quantos realmente querem ser livres e quantos só querem um novo senhor para chamar de seu?

"Como é perigoso libertar um povo que prefere a escravidão", Nicolau Maquiavel

Edição: 520
Data da Publicação: 28/03/2025

"Como é perigoso libertar um povo que prefere a escravidão", Nicolau Maquiavel em Étienne de Lá Boétie, durante seu célebre discurso da servidão voluntária. Ele denunciou uma verdade desconcertante: "Os Homens não são apenas oprimidos. Eles aprendem a amar sua opressão. Não é o tirano que os mantém escravos, mas a própria submissão que eles internalizaram aos longo dos séculos. O maior inimigo da liberdade não é a força bruta de um déspota, mas o medo da responsabilidade que vem com a autonomia".

O que Maquiavel aponta não é apenas um fato histórico, mas uma regra fundamental da natureza humana. Um povo que se acostumou à submissão não pode ser libertado sem resistência. Quem ousa quebrar suas correntes será visto como um traidor, um insensato que ameaça o frágil equilíbrio que mantém sua servidão confortável.

Nietzche

Nietzche chamaria essa atitude de moral de rebanho, uma aceitação cega da ordem estabelecida, não porque ela seja justa ou natural, mas porque pensar e agir por conta própria exigiria um esforço que poucos estão dispostos a fazer. O Homem comum, segundo Nietzche, não quer a liberdade, ele quer um senhor que o alivie do fardo de decidir por si mesmo. Assim, a escravidão torna-se um alívio, um abrigo contra a angústia existencial de um mundo sem mestres.

Platão

Platão já previa essa tendência em "A República" ao descrever a caverna onde os prisioneiros acorrentados desde o nascimento se recusam a enxergar a luz quando libertados. A verdade é dolorosa, a luz cega e a liberdade, quando oferecida a quem nunca a conheceu, não é vista como um presente, mas como uma ameaça. O Homem aprisionado prefere o conforto das sobras familiares à incerteza do mundo real.

Hegel

Hegel descreveu um dilema semelhante na dialética do senhor e do escravo. O escravo, ao ser privado de sua liberdade, perde também sua identidade e vontade, ele se torna dependente do senhor não apenas fisicamente, mas psicologicamente. Chega um momento em que a revolta deixa de ser uma opção, porque o próprio desejo de liberdade foi esmagado. O domínio já não é imposto de fora, ele foi internalizado.

Dostoiévski

Dostoiévski ilustra essa verdade de forma brilhante em "O grande inquisidor", episódio de "Os irmãos Caramasov", onde Cristo retorna à Terra e é preso pela igreja. O inquisidor lhe diz que os Homens não querem a liberdade que ele trouxe, querem pão, segurança e regras para seguir, preferem ser guiados como ovelhas a serem livres como leões. E, aqui, reside o paradoxo da libertação: ela não pode ser imposta.

Quem vive na escuridão precisa desejar a liberdade antes que ela se torne uma possibilidade real. Um povo que ama suas correntes resistirá ferozmente a quem tenta libertá-lo, e, muitas vezes, ao primeiro sinal de perigo, correrá de volta para os braços do seu opressor, implorando por proteção.

 A pergunta que fica é: Quantos realmente querem ser livres e quantos só querem um novo senhor para chamar de seu?