Pequena análise sobre a Festa do Tomate

Memórias de Paty do Alferes

 28/06/2024     Historiador Sebastião Deister      Edição 506
Compartilhe:       

Parque de Exposição Amaury Monteiro Pullig, localizado no distrito de Avelar, a quinze quilômetros do centro da cidade de Paty do Alferes. Todos os eventos ocorrem dentro deste cenário festivo, que, com uma área total tem 12.453,98 m², é composto por barracas alugadas distribuídas em toda sua extensão, onde são comercializados, sobretudo, produtos agrícolas sortidos, souvenirs, artesanatos locais, comidas e bebidas. As atrações populares condicionam diferentes apropriações do espaço do Parque no decorrer dos dias de festa. No período noturno, em particular, o amplo espaço do Parque é normalmente tomado por numeroso público, pelos grandes shows de artistas conhecidos nacionalmente e pelo rodeio, tudo acontecendo em cinco dias ou, exccepcionalmente, em uma semana.

A Festa do Tomate é composta, na verdade, por uma multiplicidade de acontecimentos festivos e heterogeneidade de eventos. É capaz de agregar, assim, a festa dos jovens, das crianças e dos adultos, bem como dos cristãos protestantes e católicos. Suas atrações musicais  vão do rock e do gospel ao sertanejo, passando pelo pagode, forró e axé, agradando diversas preferências musicais dos festeiros. Culinária, esporte, agropecuária, política e concurso de beleza têm seu momento próprio de lazer no grande espaço que constitui o Parque de Exposição. Logo, é possível identificar diferentes perspectivas sobre os mesmos fatos, que ajudam a diferenciar os atores sociais e entender que objetivos motivam tantas pessoas a participar desta festa.

Muitas motivações aparecem ainda para o público "de fora" do município. Assim, moradores de muitos municipios distantes de Paty do Alferes garantem comparecer à festa atraídos pela intensa propaganda sobre shows de artistas de renome e até mesmo mesmo pela curiosidade ou para fugir um pouco da vida estressante das grandes cidades.

De fato, estes estímulos se associam às representações de um público externo numeroso, em sua maioria moradores de cidades médias a grandes, que associam a Festa do Tomate a um evento típico da roça.

Para tais frequentadores, é justamente a possibilidade de estar em uma pequena e tranquila cidade do interior, usufruindo de atrações e novidades que nem sempre podem desfrutar onde moram, como o rodeio, as comidas diferenciadas, os shows e o próprio frio (que, muitas vezes, se faz presente com força), o que torna a Festa do Tomate tão atrativa.

Nesse sentido, a sociabilidade festiva seria por si uma das principais razões para muitas das pessoas que freqüentam a Festa do Tomate. No que se refere ao público externo, estas motivações relacionam-se principalmente a um momento de suspensão da rotina, na medida em que os shows tornam-se parte de uma motivação maior, que é se relacionar, ou se divertir com os amigos em um feriado prolongado, visto que, normalmente, o feriado de Corpus Christi é aproveitado pela Prefeitura para efetivação do evento, estendendo-o de quinta-feira a domingo.

A Festa do Tomate (que ao longos dos anos  ganhou uma enorme expressão social e cultural) é também uma importante motivação para os moradores de Paty do Alferes.  Com efeito, para todos os municípes, especialmente os mais jovens, participar da festa corresponde à satisfação encontrada na suspensão da rotina de uma cidade do interior que ao longo do ano oferece poucas possibilidades de lazer. Assim, o evento se transforma na melhor festa da região.

Os visitantes ocasionais e os turistas tornam-se, inclusive, um motivo a mais para ir à festa, onde existe a possibilidade de conhecer pessoas novas e a oportunidade de assistir ao vivo artistas famosos, detalhes que, por outro lado, acabam ampliando a rede de relações humanas. Como um evento anual, a festa gera expectativas e modifica a dinâmica da vida dessas pessoas nesse curto período festivo. No caso das candidatas ao Concurso da Rainha, a festa representa ainda uma boa oportunidade de adquirir status para as jovens que gostam de desfilar e a chance de realizar um sonho em uma passarela..

Há ainda aqueles para quem a Festa do Tomate é sobretudo sinônimo de trabalho. Assim, seja para os funcionários da prefeitura escalados para a festa, seja para os "barraqueiros", seja para quem controla o parque de diversões, seja para os peões do rodeio, e seja ainda para quem  fica eclipsado nos bastidores da festa, como as merendeiras da escola ou os homens que montam a estrutura do parque, a motivação para realizar uma atividade que aparenta ser puramente alegre já vem atrelada ao sistema de significados que envolve trabalhar na famosa Festa do Tomate, e não em outro lugar ou evento qualquer.

A preparação e o investimento para que a Festa do Tomate seja um sucesso envolvem questões que vão muito além do momento específico de sua realização, que dura, em geral, cinco dias. Como uma importante, senão a principal, divulgadora do município e da sua produção agrícola, esta festa funciona como mediadora entre Paty de Alferes e outros municípios e até mesmo estados além do Rio de Janeiro. Desse modo, a publicidade e divulgação do município são feitas no sentido de atrair o máximo de visitantes. Nessa ótica, a Festa do Tomate é vista por muitos moradores como sendo estruturada para as "pessoas de fora" que, como vimos, é o público predominante que tem uma perspectiva diferente do público "de dentro". Ao mesmo tempo, a festa é também um importante ícone identitário para todos os patienses.

Realizada em época de colheita, a Festa do Tomate celebra a fartura ao articular o encerramento e a preparação para um novo ciclo produtivo. Como é a principal atividade econômica de Paty do Alferes, a produção agrícola do tomate envolve uma ampla rede de relações em diferentes contextos sociais e simbólicos. Por conseguinte, a produção agrícola de tomate se entrelaça com a história do município de Paty do Alferes. Antes de culminar como o personagem principal da Exposição Agrícola da Festa do Tomate, esta hortaliça-fruto percorre várias etapas em um tipo de lavoura permeado de representações sobre o cultivo e o próprio tomate. Logo, por mais que a lavoura remeta ao domínio da natureza, é possível afiançar que o tomate está profundamente inserido nas relações sociais, culturais e econômicas de Paty do Alferes, transmutando-se, assim, em um sinônimo perfeito e idelével do próprio município.

Criada em 1988 objetivando apenas apresentar e divulgar a produção agrícola e pecuária de Paty do Alferes, o evento ganhou, ao longo dos anos, um gigantismo inesperado até mesmo pelas autoridades patienses. Desde 2021 constitui um Patrimônio de Natureza Imaterial do Estado do Rio de Janeiro.