Maria Helena Miguel Pereira e a Rua Dr. Joaquim Nicolau - Estudo biográfico 37
O professor Miguel da Silva Pereira e a esposa Maria Clara Tolentino Pereira geraram 6 filhos: Maria Helena, Vera Lúcia, Lúcia Vera, Miguel Filho, Maria Clara (Mancala) e Virgílio Mauro
10/06/2016
Historiador Sebastião Deister
Edição 89
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O
professor Miguel da Silva Pereira e a esposa Maria Clara Tolentino Pereira
geraram 6 filhos: Maria Helena, Vera Lúcia, Lúcia Vera, Miguel Filho, Maria
Clara (Mancala) e Virgílio Mauro. Os homens seguiram a profissão do pai, e o
caçula Virgílio Mauro, inclusive, manteve na cidade, nos anos cinquenta, a
Clínica São Miguel ao lado dos amigos Francisco Marinho Andreiolo e Dr. Carlos
Leite no segundo andar do prédio que hoje abriga a Farmácia Droga Mais. Por seu
turno, a primogênita Maria Helena veio a se casar com Joaquim Nicolau, também
médico. Após a morte do Dr. Miguel Pereira em 1918, a viúva Maria Clara e
demais filhos mantiveram seu sítio no centro da então Vila da Estiva. Maria
Helena e Joaquim Nicolau, todavia, optaram por uma chácara mais distanciada,
localizada na área periférica do bairro Sertãozinho, a meio caminho da chamada
Fazenda do Camorça. Obviamente, os contatos entre os dois sítios mostraram-se
prejudicados com as dificuldades impostas pela distância e muitas vezes pelas
súbitas mudanças de tempo das colinas. Com efeito, de sua casa até o centro da
Estiva Maria Helena e Joaquim Nicolau por vezes precisavam enfrentar os
lamaçais criados pelas fortes chuvas serranas. Lembremos que o transporte da
época baseava-se no uso de cavalos e charretes, e frequentemente o sacrifício
das pessoas e dos animais não compensava uma rápida visita à vila.
Segundo
a filha Teresa Nicolau (atualmente proprietária do Sítio Maria Clara, legado
pelo Dr. Miguel Pereira), a trajetória de Maria Helena, da adolescência à idade
adulta, previa a formação de uma jovem culta, recatada e dotada das melhores
prendas domésticas, a exemplo das irmãs Lúcia e Vera, particularidades, aliás,
bastante apreciadas nas senhoritas das primeiras décadas da centúria XX.
Contudo, desde jovem Maria Helena mostrou a todos ser dona de uma personalidade
forte e diferenciada, fazendo sempre valer ideias por vezes consideradas exageradas
e surpreendentes para uma mulher que cursara colégios formadores de moças
tranquilas e discretas, como, por exemplo, o famoso Sion, no Bairro Laranjeiras,
onde estudava a elite feminina da capital brasileira nos primórdios do século
vinte.
Sua
vida com o Dr. Joaquim Nicolau era levada com alegria e tranquilidade em seu
belo e aconchegante sítio. Porém, a necessidade de estabelecer contatos mais
constantes com a família e os amigos de Miguel Pereira fez Maria Helena
refletir sobre a urgência de encurtar os caminhos que conduziam ao centro da
Estiva. Todo aquele longo e penoso circuito via Fazenda do Sertãozinho, estrada
da Vargem do Manejo e depois ruas do bairro Pantanal precisava ser deixado de
lado. Assim, por que não uma via de ligação direta com o Bairro Praça da Ponte,
bem do outro lado da colina que limitava sua chácara? Já existia por ali uma
trilha própria para cavalos, logo bastava alargá-la e adaptá-la para a passagem
de charretes e outros veículos da época. Dificuldades de mão-de-obra e de
logística iriam surgir, mas para uma mulher com visão de futuro, disposição
inigualável para o trabalho e coragem quase temerária, tudo seria de pronto
superado.
Corria
o ano de 1936. Envergando um típico traje de camponesa - no qual se destacavam longas
botas de couro, resistentes roupas de algodão cru e grande chapelão a lhe
proteger rosto e cabelos - Maria Helena comandava seus empregados,
estimulando-os nos penosos trabalhos feitos com enxadas, pás e ancinhos apoiados
por rangentes carros-de-boi, ela própria dando o exemplo ao cavar o duro chão
de argila ressecada e preparar valetas laterais para o escoamento das águas de
chuva. Enfrentou o descrédito, a resistência e até mesmo o deboche de alguns
proprietários de terras vizinhas àquele caminho, entre eles uma das suas mais
ferrenhas adversárias: Arinda Bernardes, de Paty do Alferes, que se mostrou totalmente
avessa à cessão de faixas de terreno para a obra. Envolvente e dona de retórica
firme e elaborada, que não admitia negativas, Maria Helena lentamente minou
relutâncias e oposições de todas as pessoas que não concordavam com sua
empreitada, convenceu um desconfiado marido da importância de seu trabalho e
mostrou a todos o quanto seria fundamental conectar não apenas seu sítio, mas
toda a área do Camorça e de Sertãozinho ao centro de Miguel Pereira através de
uma passagem rápida pelo Bairro Praça da Ponte. Foram tempos duros, de corpos
exaustos e mãos calejadas, mas lá está, até hoje, a Rua Dr. Joaquim Nicolau, relembrando
o médico que atendia de graça no Sítio Maria Clara e que gratuitamente trazia
do Rio de Janeiro remédios e poções para os moradores mais pobres da cidade. A
estrada, entretanto, representa muito mais do que isso. Ela traz em seu leito o
invisível registro dos esforços, do árduo trabalho e da incrível audácia de uma
mulher que realmente vivia à frente de seu tempo, ou seja, uma pioneira desprovida
de medos e cuja decisão marcou época em nossa cidade através de uma obra que poucos
homens teriam firmeza de ânimo para implementar, especialmente quando
precisavam se valer dos parcos recursos que os anos trinta do século XX
ofereciam.
Maria Helena
Miguel Pereira e o Dr. Joaquim Nicolau tiveram apenas duas filhas: Gilda
(casada com o Dr. Ivan Costa Pinto, pais de Carlos e Antônio Pedro) e Teresa
(esposa de Rodolfo, pais de Pedro Nicolau). Não foi possível precisar a data de
falecimento do casal.
Na próxima edição: Argeu Pinheiro