Tom Jobim e Javary, no hotel do tio Paulo

26 anos sem o maestro Tom Jobim

 24/12/2020     História      Edição 325
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Em dezembro, completaram 26 anos que o maestro Tom Jobim partiu. Tom nasceu na Tijuca, na rua Conde de Bonfim, casa de nº 634, mas foi no hotel do tio Paulo, em Miguel Pereira, que Tom Jobim conheceu a natureza e seus primeiros passos para se tornar o ambientalista que o mundo conheceu.

Aos 6 anos, Javary na veia

Aos 6 anos de idade, Tom Jobim, sua irmã Helena de 2 anos e sua mãe Nilza já frequentavam Miguel Pereira. Era para Javary da década de 30 (1933) que a família fugia do Rio; eles vinham de trem e faziam baldeação em Belém (hoje, Japeri), onde tinham que correr para pegar as malas no bagageiro do trem para não perder a Maria Fumaça rumo a Javary. Passavam as férias no Hotel do tio Paulo, diziam Tom e Helena. O comandante Paulo Emílio era irmão de Nilza e dono do Hotel Javary.

Acordava cedo e ia para o curral

Ali, Tom Jobim acordava cedo, mal raiava o dia e já estava pronto para pular da cama. Pegava um copo na cozinha e ia correndo para o curral, atrás das cocheiras. Lá, tomava leite quentinho tirado na hora.

Tom gostava de passear pisando pelas folhas secas dos eucaliptos, brincava com as carrapetas dos eucaliptos e com as cascas das sementes. Tom, com essa idade, já procurava por pássaros ali por perto, mas diziam que o cheiro forte dos grandes pés de eucalipto (citriodora) não deixava os passarinhos fazerem ninhos.

As lembranças da irmã Helena

Segundo Helena Jobim, sua irmã, mais tarde ela contaria em livro suas lembranças de Javary: "Havia um açude, belo e misterioso, redeador de eucaliptos, suas águas de garapa escondiam um segredo no fundo, era um lugar paradisíaco", disse Helena em seu livro Antônio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado.

O bairro Javary ainda não existia

Paulo Emílio e o cunhado Azor Brasileiro de Almeida, que era engenheiro, agrimensor, advogado e marido da mãe de Paulo e Nilza, Emília Afonsina, tentaram implantar uma fazenda modelo em Javary - não deu certo. Então, Azor e o comandante levantaram a barragem, fizeram o Lago de Javary e transformaram a fazenda em loteamento, hoje sendo um dos bairros mais bonitos da cidade. O Hotel Javary existe até hoje.

Sua veia parnasiana

Tom era filho de Jorge Jobim (professor, diplomata, poeta parnasiano, escritor, crítico e jornalista). Jorge de Oliveira Jobim, nascido em 1889, formou-se em direito no Rio e serviu nas embaixadas brasileiras de Quito, Buenos Aires, Lima e Valparaíso. Tom atribuiu ao pai, poeta parnasiano, sua veia poética, pois, como Tom dizia: "Esse negócio de poesia acho que nasce um pouco com a gente. A gente é poeta ou não. É um pouco uma herança, uma maneira de ver o mundo. Eu teria sido provavelmente um literato se não tivesse perdido meu pai. Eu o teria seguido. Papai era um literato".

O primeiro piano

Mas Jorge Jobim faleceu cedo, Tom tinha apenas 8 anos quando o pai se foi. Dois anos depois, sua mãe Nilza se casou com Celso Frota, que foi o verdadeiro pai de Tom e grande incentivador de sua musicalidade. Foi Celso que comprou o primeiro piano quando ele tinha 14 anos. Ao voltar da praia, deparou-se com um piano na garagem de casa. Esse piano mudaria sua vida, era um piano alemão Bechstein, maior fabricante de pianos de ponta.

Escritores, compositores e cantores

É impressionante como Miguel Pereira tem um imã para atrair músicos e escritores, como Clarisse Lispector, Paulo Coelho, Francisco Alves - o Rei da Voz -, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Raul Seixas, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Pery Ribeiro, Daniel Gonzaga e Gabriel Pensador.