A Estrada do Imperador

Antigos Caminhos de Colonização do Tinguá, 06

 23/04/2017     Historiador Sebastião Deister   
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A estrada utilizada pelo Imperador D.Pedro II em sua viagem entre Petrópolis e a Vila de Paty do Alferes no ano de 1858 foi aberta em meio à mata cerrada sob a orientação do engenheiro Oto Reimarus, mas documentos antigos dão conta de que em 1810 alguns desbravadores já tinham rasgado um pioneiro caminho adjacente a Petrópolis partindo da atual Estrada do Contorno. Hoje, ela pode ser considerada como uma verdadeira atração histórica, turística e ecológica tal a sua beleza e a quantidade de locais interessantes que surgem junto à vegetação exuberante que agasalha as colinas das serras do Couto, das Perobas e de Santa Catarina.

Partindo do Vale das Princesas (ainda dentro do território de Miguel Pereira), percorre-se um estreito e tortuoso caminho envolvido pela mata nativa, mas perfeitamente trafegável para automóveis compactos ou veículos de menor porte, como moto e bicicletas. Por outro lado, é necessário duplicar a atenção e os cuidados com a viagem, pois caso o motorista se defronte com um veículo maior será complicado o cruzamento entre eles, a menos que um recue com segurança até surgir uma largura razoável onde se possa empreender uma manobra mais tranquila.

Deve-se ainda atentar para as chamadas pinguelas (pequenas pontes estreitas normalmente recobertas de barro, construídas com tocos rústicos ou tábuas menos resistentes) dispostas por sobre pequenos cursos de água que brotam do coração da mata. Também a erosão pluvial, muito forte na região, tem deteriorado bastante as cabeceiras de tais pontes, e com um peso excessivo sobre o madeirame já malbaratado pelo tempo sempre haverá o risco de uma ruptura súbita das laterais ou a quebra dos pranchões que as constituem.

Ao longo da estrada, pode-se admirar a luxuriante vegetação das colinas serranas (área hoje protegida pelo Instituto Chico Mendes Bio (ex-IBAMA), nas quais se destacam espécimes vegetais nativos seculares, sobressaindo-se nesse conjunto jacarandás, quaresmeiras, cedros, pinheiros, jacarés, caneleiras, paineiras, paus-d?arco, acácias, sibipirunas, paus-ferro, figueiras, ingás, bambuzais, ipês, espatódeas e palmeiras, além de bromélias, samambaias, fetos, musgos, xaxins e uma admirável gama de orquidáceas, prova que comprova ser aquela mata uma continuação das florestas nascidas nos contrafortes mais altos do Tinguá. A cobertura natural ainda abriga uma grande população de animais silvestres como pacas, jaguatiricas, mãos-peladas, tatus, micos e dúzias de aves terrestres e aéreas, canoras ou não, como nhambus, jacus, maritacas, periquitos, papagaios, coleiros, pintassilgos, trinca-ferros, galos-da-serra e sabiás. Por outro lado, a presença de répteis (principalmente camaleões e serpentes) é constante e visível, assim como os anfíbios (sapos, pererecas e rãs) e multicoloridos insetos (borboletas, formigas de várias espécies, besouros, mangangás, vespas e miríades de mosquitos vorazes). No calor e na umidade dos bosques, as aranhas encontram um ambiente ideal para sua proliferação, tecendo suas vastas teias de tronco em tronco ou de galho em galho e complicando dessa forma a passagem do excursionista que segue a pé pela floresta úmida.

A mata serrana aqui considerada ? que abrange grande parte de Miguel Pereira, Paty do Alferes, Nova Iguaçu e Petrópolis, é eventualmente visitada e fiscalizada por funcionários do ICM Bio e por alguns guardas florestais, visto que é parte integrante de uma Área de Proteção Ambiental (APA) da Reserva Biológica do Tinguá (REBIO). Destacam-se ainda na região diversas nascentes cristalinas, cuja evaporação tênue, mas perene, confere àquele notável ecossistema uma temperatura extremamente baixa no inverno e profundamente refrescante e saudável no verão.

A Estrada do Imperador (em grande trecho sobreposta ao Caminho Novo de Minas), apresenta atualmente três bifurcações na encruzilhada do logradouro chamado Cruz das Almas: à frente (para o viajante que vem de Petrópolis) e em rumo sul ela segue morro acima para alcançar a localidade de Palmares e daí, em descida, desembocar em Paty do Alferes junto à antiga Fazenda da Manga Larga. Para o norte, subindo o Alto do Catete(Miguel Pereira), outra variante contorna a Escola Municipal Manoel Ribeiro indo em direção noroeste e seguindo para o Vale das Videiras (Petrópolis). A terceira via, descendo para sudoeste, contorna a região de Marcos da Costa, acompanha em alguns trechos o Rio Santana e por fim toca as bordas de Vera Cruz, de onde é possível subir para o Lago das Lontras através do caminho que leva à Fazenda Monte Líbano ou então rumar pelas colinas da Estrada MP-04 em busca de Barão de Javary.

Em uma das encostas da Serra de Santa Catarina, já no limite Miguel Pereira/Petrópolis, encontra-se a gruta onde Manoel Congo e vários escravos refugiaram-se após sua fuga da Fazenda Maravilha, em Paty do Alferes, em novembro de 1838. Ali, os negros rebelados lutaram com denodo contra as tropas comandadas pelo Barão de Paty (Francisco Peixoto de Lacerda Werneck), sendo enfim derrotados e levados a julgamento em Vassouras.

A partir da próxima edição:As Igrejas Católicas na Ocupação do Vale do Paraíba