A variante do Proença - Antigos Caminhos de Colonização do Tinguá
A Variante do Proença foi a base dos trabalhos de fiscalização executados por outro conhecido personagem da História do Brasil: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, quando de suas patrulhas oficiais pela região de Paraíba do Sul.
24/03/2017
Historiador Sebastião Deister
Edição 130
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Na segunda década do século XVIII, o Caminho Novo de Minas encontrava-se em visível estado de deterioração em consequência de seu piso frágil e do intenso trânsito de caravanas que ele suportava havia vinte anos. Tal problema levou D. João V a convocar novamente Garcia Rodrigues Paes, no intuito de abrir uma variante que encurtasse ainda mais as jornadas para Minas e que, simultaneamente, oferecesse mais segurança aos viajantes. Alegando cansaço e idade avançada (já contava 61 anos), Garcia sugeriu aos governantes o nome do Sargento Bernardo Soares Proença para a execução das obras, o que foi de pronto aceito.
O sertanista Proença era Sargento-Mor do Rio de Janeiro por patente outorgada em 19 de junho de 1717. Pelos trabalhos que executou com presteza e qualidade, recebeu Cartas-Régias de agradecimento em 6 de julho de 1725 e 28 e janeiro de 1728. Já em 1733, como Tenente-Coronel de Infantaria do Rio de Janeiro, fez uma exposição escrita e pormenorizada desse seu importante trabalho. Faleceu em 1738 no Rio de Janeiro, quando ocupava o posto de Mestre-de-Campo.
Bernardo Soares Proença era cunhado de Francisco Fagundes do Amaral, e, portanto, irmão de Águeda Gomes de Proença, os pioneiros fundadores do Arraial de Sebollas. Por certo, a ocupação das terras periféricas a Paraíba do Sul pelos parentes diretos de Proença deva ter sido influenciada pelo importante caminho aberto por ele, já que tal via de penetração proporcionou a todos amplas condições de sobrevivência em tantas plagas ainda inexploradas do hinterland fluminense.
Proença estabeleceu como ponto de partida de sua variante a chamada Encruzilhada do Lucas, em Paraíba, derivando-a certamente da estrada deixada por Garcia, que ali passava desde 1700. Enquanto o Caminho Novo de Garcia derivava para noroeste, seguindo para o atual bairro paraibano de Werneck, a nova variante penetrava pelos bairros de Santo Antônio dos Pobres da Encruzilhada, Fernandó Ponte-do-Silva e Marrecas. Desses logradouros, atendia diretamente a velha Fazenda do Governo e cortava a área em linha reta para Sebollas através de inúmeros pastos e ainda pelo interior da Várzea dos Macacos, onde havia um antigo pouso de tropeiros conhecido pelo curioso nome de "Pouso do João Grande". Vadeando o Rio Fagundes, subia o caminho até as nascentes do Rio Secretário, já nas fraldas do Pico da Maria Comprida, e cortava os rios Araras e Carangola, este na zona da atual cidade de Petrópolis.
De tal ponto, a variante ganhava o Rio Seco, desbravava a Serra do Mar e descia o Rio Inhomirim, ganhando finalmente os fundos da Baía da Guanabara, onde se destacava o importante e famoso Porto da Estrela (na área de Magé), extinto, infelizmente, em 1891. Tendo como base esse cais, os viajantes utilizavam então as grandes faluas (barcos a vela) para enfim desembarcar no cais dos Mineiros - atualmente Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro - após seis horas de extenuante travessia marítima. Não obstante o Caminho do Proença permitir viagens mais rápidas entre a Paraíba e o Rio de Janeiro, o ouro dos quintos reais continuou a ser transportado, por muito tempo, pelo Caminho Novo de Minas rasgado por Garcia, visto que esse, por apresentar um reduzidíssimo trecho marítimo, evitava possíveis piratarias às embarcações que singravam desprotegidas a Baía da Guanabara.
Somente após a morte do Sargento, seu caminho passou a servir diretamente as áreas adjacentes ao rio Piabanha, providência que visava a atender os sesmeiros que para ali se deslocavam em grandes levas no intuito de receber terras de cultivo.
Por volta de 1743, a Variante do Proença foi estendida até a foz do Rio Araras, descendo então para o Sítio do Alferes Caetano, embrião da atual localidade petropolitana de Pedro do Rio, de onde retornou ao vale do Secretário para, finalmente, vencer o divisor de águas no chamado Alto do Pegado. Posteriormente, esse caminho - tão vital para o desenvolvimento de toda a região do Sertão da Paraíba e para o surgimento de Petrópolis - seria convertido pelas autoridades na "Estrada Geral das Minas Gerais".
Proença concluiu seu serviço entre 1722 e 1724. Uma das grandes heranças da sua estrada foi a fundação de Petrópolis. De fato, a Fazenda do Padre Corrêa serviu de primeiro pouso para Sua Alteza Real D. Pedro I quando de sua célebre viagem às terras mineiras em 1822, poucos meses antes da independência. Apaixonado pela região, o Imperador tentou comprar a propriedade, mas diante da firme recusa do padre optou por adquirir a fazenda do Córrego Seco, deixando-a como herança para o filho após sua abdicação em 1831. D. Pedro II, então, contratou o engenheiro Júlio Frederico Köeller para arruar a fazenda e ali erguer seu palacete de verão, obra que acabou propiciando a criação da Cidade Imperial.
A Variante do Proença foi a base dos trabalhos de fiscalização executados por outro conhecido personagem da História do Brasil: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, quando de suas patrulhas oficiais pela região de Paraíba do Sul.
Na próxima edição: A Estrada do Comércio.