A Lagoa dos Tupinambás
O Dia do Índio pode ser um bom pretexto para mudar o nome do maltratado cartão postal
27/04/2018
Planeta Colabora
Edição 187
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Foi o mestre Carlos Heitor Cony, morador apaixonado, que reproduziu uma
definição da Lagoa, em seu livro da série Cantos do Rio, como a maior rotunda
rodoviária do mundo, com 64 entradas e saídas para carros. De todas as
violências cometidas contra a antiga Piraguá (água parada em tupi) ou
Sacopenapã (caminho dos socós, uma ave de bico comprido), essa epidemia de
veículos de hoje é a que mais me incomoda. Transformaram o entorno da lagoa em
uma via expressa, quase sempre engarrafada por excesso de carros e sinais. O
lugar privilegiado pela vista ? que inclui o Cristo Redentor, a Pedra da Gávea
e o próprio espelho d'água - é uma área de lazer elitista, onde o transporte de
massa não chega e ir de ônibus significa enfrentar congestionamento: lazer na
Zona Sul para a Zona Sul.
"Os livros registram que, dez anos depois, os
tupinambás da Lagoa foram dizimados por uma epidemia de varíola: o governador
da capitania, Antonio Salema, um precursor da guerra bacteriológica, espalhou
roupas de pessoas mortas pela doença pelas matas do entorno para acabar com os
índios e criar um engenho de açúcar."
Mas, em um dia azul do outono carioca, com tempo e disposição para
andar, passear pela orla da Lagoa é um ótimo programa, programa tão bom como
deveria ser para os primeiros habitantes das suas margens, os tupinambás da
aldeia Kariane. Os índios plantavam mandioca e tabaco, colhiam frutas,
fabricavam panelas de barro, machados de pedra, cestas e cipó, caçavam - inclusive os socós - e pescavam na lagoa, pelo menos, até 1575. Os tupinambás
foram aliados dos franceses contra os portugueses nas batalhas pela Baía de
Guanabara: não é de espantar que muitas de suas aldeias tenham sido destruídas
após a vitória das tropas de Estácio de Sá e da fundação da cidade do Rio de
Janeiro, em 1565. Os livros registram que, dez anos depois, os tupinambás da
Lagoa foram dizimados por uma epidemia de varíola: o governador da capitania,
Antonio Salema, um precursor da guerra bacteriológica, espalhou roupas de
pessoas mortas pela doença pelas matas do entorno para acabar com os índios e
criar um engenho de açúcar.
Difícil imaginar tanto as roças rudimentares indígenas quanto os campos
de cana ao andar a beira da lagoa do século XXI. Com a informação de que o
espelho d?água era, na chegada da Família Real ao Brasil, praticamente o dobro
de hoje, é mais fácil visualizar o avanço dos aterros. Após Dom João VI
desapropriar o engenho para fazer uma fábrica de pólvora e o Jardim Botânico,
atraindo as primeiras moradias urbanas, a orla da lagoa recomeçou a ser ocupada
por gente, quase 250 anos depois dos tupinambás. E após mais de um século,
começou a ser aterrada sistematicamente, quando já era então vítima da poluição.
A primeira grande invasão veio com a construção dos canais da Visconde de
Albuquerque e do Jardim de Alah, este o ponto de partida desta minha caminhada:
toneladas e mais toneladas de terra retiradas para abertura dos canais a partir
de 1920 serviram para criar aterros para a construção da Avenida Epitácio
Pessoa, então presidente da República, e, depois, para o Hipódromo da Gávea (em
1926), o Clube dos Caiçaras (em 1931), a sede do Piraquê (em 1940), o Estádio
de Remo da Lagoa (em 1954)...
Com o avanço dos aterros, nos mais de sete quilômetros em torno da
lagoa, já teve de tudo um pouco: brincava-se num tobogã e hoje há pistas de
skate e patins; criaram ali um Drive-In perto de onde hoje há um complexo de
cinemas; abrigou parque de diversões e hoje se multiplicam áreas de piquenique
e lazer para crianças. E mais: heliporto, cais para pedalinhos, garagens de
remo, quiosques sem muitos atrativos, quadras de basquete e tênis, parque para
cães e até um campo de baseball. No domingo de sol, o movimento no entorno é
grande, mas ainda assim há menos cariocas ali do que nos carros engarrafados ao
redor, a caminho do Rebouças ou do Zuzu Angel (foram as construções dos túneis
ligando a Zona Norte à Barra que transformaram a Lagoa na maior rotatória do
mundo).
Também dá para imaginar neste caminho as favelas da Ilha das Dragas,
aterrada na duplicação da avenida, da Praia do Pinto, que deu lugar à Selva de
Pedra, e da Catacumba, onde surgiram edifícios luxuosos e o parque - todas
removidas na década de 1960. A poluição das águas, praga desde o século XIX,
tornou-se endêmica com a especulação imobiliária: mergulhar, como faziam os
índios, tornou-se inimaginável. O calor, a sede e as pernas me levam em direção
ao Bar Lagoa, já na Borges de Medeiros, onde bebe-se um dos melhores chopes da
cidade e é possível beliscar petiscos alemães na varanda com vista do Cristo e
do espelho d?água. Sob o sol de 2018, encontram-se até cariocas repetindo
outros hábitos tupinambás de cinco séculos atrás, como atravessar a lagoa a
remo - antes com canoas, hoje com barcos esportivos - e pescar nas suas margens
?-antes com lança ou arco e flecha, hoje com varas de pescar.
A estátua do Curumim - instalada numa pedra no espelho d'água, perto da
garagem de remo do Vasco - é a única homenagem aos primeiros moradores que
sequer conseguiram deixar de herança um nome indígena para o lugar. Se Ipanema,
bairro batizado com nome tupi, e Copacabana - nome quechua, tribo andina - vêm
sendo cantadas em versos há gerações, a Lagoa Rodrigo de Freitas traz muito
menos inspiração aos poetas, por conta, certamente, deste infeliz nome de
batismo, homenageando um militar português que herdou as terras da mulher e
nada fez de significativo nos seus 15 anos no Rio (1702/1717). Como estamos
perto do Dia do Índio, fica a ideia para os nossos representantes no
Legislativo e no Executivo: rebatizar a Lagoa - o acidente geográfico, não o
bairro - de Piraguá ou Sacopenapã para homenagear os tupinambás, que cuidaram
do lugar bem melhor do que fez Rodrigo de Freitas ou qualquer outro homem
branco nos séculos seguintes.