Depoimento de Paulo Coelho sobre a Irmã Santa Dulce, agora Santa Dulce dos Pobres
"Eu estava literalmente passando fome há dias, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiátrico onde fora internado por meus pais"...
18/10/2019
Atualidade
Edição 264
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"Eu estava literalmente passando fome há
dias, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiátrico
onde fora internado por meus pais - não porque me queriam fazer mal, mas porque
estavam desesperados para controlar o filho "rebelde".
Vaguei sem rumo pelas ruas da cidade, que me
eram completamente estranhas, sem um centavo no bolso, até que alguém me disse
que havia uma freira que poderia me ajudar - eu já corria o risco de ser preso
por vagabundagem.
Fui a pé até a casa da freira. Juntei-me as muitas
pessoas que estavam ali em busca de socorro, chegou minha vez e, de repente,
estava frente a frente com ela.
Perguntou o que eu queria - e a resposta foi simples:
'Não aguento mais, quero voltar para casa e não tenho como'. Ela não fez mais
perguntas (o que está fazendo aqui? Onde estão seus pais? Etc.). Eu não
comentei que tinha fugido do hospício e que corria o risco de voltar pra lá.
Ela pegou um papel em sua mesa, escreveu 'vale
um bilhete de ônibus até o Rio', assinou e pediu que fosse à rodoviária com ele
e mostrasse a qualquer motorista.
Achei uma loucura, mas resolvi arriscar. O
primeiro motorista que leu o que estava escrito no papel mandou que eu embarcasse.
Isso era o poder daquela freira: uma autoridade moral que ninguém ousava
desafiar.
É com lágrimas nos olhos que escrevo essas
linhas. Obrigado, Irmã Dulce, por seus dois milagres: matar a fome de alguém e
permitir a volta do filho pródigo."
Escritor Paulo Coelho