O alambiqueiro de 20 anos e a fazenda de dois séculos da Cachaça Pindorama
Por artes do destino, Luiza de Almeida Braga viu-se com um alambique para tocar e nenhuma experiência com as lides da cachaça. Assim começou a história da Cachaça Pindorama.
04/02/2022
Turismo gastronômico
Edição 383
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A estrutura do tal alambique havia sido montada em um antigo galpão da
fazenda de 200 anos que ela e o marido - o empresário e lendário mecenas do
esporte brasileiro Antônio Carlos de Almeida Braga - haviam comprado em pouco
tempo.
A Fazenda das Palmas, em Paulo de Frontin, na porção
fluminense do Vale do Paraíba, vinha renascendo nas mãos do casal, tornando-se o
que é hoje: uma relíquia que testemunha os tempos áureos do café na região.
Em meados do século XIX, período em que o Vale do Paraíba fluminense era
uma das mais prósperas regiões do planeta, os casarões suntuosos eram a sede de
um modo de produção baseado na autossuficiência, sustentado por escravaria
contada às centenas.
A Fazenda das Palmas traz as reminiscências desse tempo
ao mesmo tempo em que é um espaço privilegiado para as artes e o bom gosto, com
esculturas de Cescchiati e outros artistas espalhadas pelos amplos gramados do
vale onde ela foi erguida.
Mesmo entre as sempre impressionantes propriedades dos antigos barões do
Vale do Café, Palmas se destaca pela antiguidade. A fazenda surgiu nos primórdios da ocupação cafeeira da região, na passagem do século XVIII
para o XIX, por iniciativa do fazendeiro Bento de Oliveira Braga. A propriedade foi uma das que estabeleceram o Ciclo do Café no
Estado do Rio.
Voltando ao alambique? Havia aquela estrutura, remontada em um espaço -
talvez usado em outras eras também como senzala - onde os novos donos da
fazenda haviam encontrado uma moenda e outros apetrechos de origem europeia,
usados para produção de açúcar, melado e cachaça em tempos pré-indústria
brasileira. Fazer o que com aquilo?
Luiza decidiu pedir ajuda. Procurou o telefone e ligou para a Apacerj
(Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça do Estado do Rio de Janeiro),
presidida então pela produtora da Cachaça Da Quinta, de Carmo, Kátia do
Espírito Santo.
Kátia, que, após uma vida profissional muito distante da porteira da
fazenda, também "herdou" um alambique, e, sem ter histórico de produtora,
transformou a Cachaça Da Quinta em uma das marcas mais premiadas do Estado do
Rio, acolheu Luíza.
As duas damas marcaram um café no Leblon e Kátia desenhou, entre um café
e uma torrada do Talho Capixaba, o mapa para que Luiza fizesse o alambique florescer.
Uma das 'dicas' mais valiosas de Kátia foi o nome do engenheiro de
alimentos Bruno Zille. Ele se tornaria o RT (Responsável Técnico) da Cachaça
Pindorama.
"Ele faz tudo com muita calma. Supervisiona e passa toda a orientação
para o pessoal do alambique. Vem aqui e fica sempre pelo tempo que for
necessário", diz Luiza - como se fosse difícil "ficar" na Fazenda das Palmas.
Cachaça
Pindorama ganha alambiqueiro
Os equipamentos começavam a ganhar outra vida. O alambique nascia e a
produção se estruturava. Nesse processo, surge na história um "menino de
engenho". Rafael Silva havia subido do litoral sul fluminense, onde nasceu,
para trabalhar com o tio na Fazenda das Palmas. Ajudava no green e fazia outros serviços, mas, vendo a
movimentação no galpão, aproximou-se de Bruno e começou a passar cada vez mais
tempo dentro do alambique. Tinha 17 anos.
"Dona Luiza me deu essa oportunidade", diz Rafinha, como é conhecido.
"Eu não! Ele que se meteu dentro do alambique, se interessava por tudo", se
diverte Luiza. "Ele escolheu esse caminho. A gente viu que parecia uma vocação
e deixou. Deu certo. Hoje, é nosso alambiqueiro".
Rafinha diz que deve a Bruno a maior parte do que sabe. "Ele me ensinou
mais de 70%, o resto fui pegando com a prática", diz o alambiqueiro da
Pindorama.
Rafinha, hoje com 25 anos, construiu sua família enquanto cuidava do
alambique. Casou-se e é pai de um filho de menos de dois anos.
O jovem alambiqueiro prepara o fermento da Cachaça Pindorama usando o
milho orgânico da própria fazenda e o caldo da cana cultivada em regime de
agrofloresta, no qual plantações e vegetação nativa se misturam e complementam,
justificando o mote da Pindorama: "nascida no coração da floresta".
"A cachaça é cheia de detalhes, a gente tem que sempre estar muito
atento, corrigir o fermento quando ele começa a perder a vitalidade, alimentar
o caldo e sempre manter tudo muito limpo", diz Rafinha. "O que ela pede da
gente é muita atenção".
Certo de que a sua parte é das mais importantes para que a Pindorama
seja uma cachaça branca rica em sabores e aromas, Rafinha fala em 'terroir" e
quer ampliar seus conhecimentos. "Cada dia eu aprendo uma coisa a mais", diz o
alambiqueiro.
Como a Fazenda das Palmas só produz
cachaça durante dois a três meses ao ano, mas está aberta para hospedagem
permanentemente, Rafinha também faz as vezes de bartender. Essa parte de seu
aprendizado ainda está no começo, mas ele se prepara para descobrir os segredos
de um dos mestres desse riscado. Ainda este mês, embarca para São Paulo para um
estágio no Guarita Bar, sob a batuta do premiado Jean Ponce. A oferta foi feita
por Jean durante o recente Festival da Cachaça de Vassouras.
No evento, Rafinha, ao lado do embaixador Milton Lima, foi uma das
figuras mais presentes no estande da Cachaça Pindorama, que estreava em feiras
de cachaça. Com olhos sempre bem atentos para tudo, estava feliz demais. "O que
eu vejo é que a cachaça tem sido uma ponte para eu mudar a minha vida. É muito
trabalho, mas vale a pena demais", diz o alambiqueiro.
Por Dirley Fernandes - Fonte Devotos da Cachaça
https://xn--devotosdacachaa-rmb.com.br/2021/12/08/o-alambiqueiro-de-20-anos-e-a-fazenda-de-dois-seculos-da-cachaca-pindorama/