A Reforma Agrária é pop, de popular
A "coincidência" do crescimento do agronegócio e da fome destaca que é o povo do campo quem coloca alimentos na mesa
14/07/2023
Opinião
Edição 458
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Marina do MST*
Minhas primeiras atividades na luta pela
terra foram aos 14 anos, no Paraná. Trabalhava como boia fria e vivia na pele
as contradições do latifúndio. Anos depois, em 1996, a militância no MST me
levou a Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. E ano passado fui eleita a
primeira deputada sem terra do Rio de Janeiro, estado com a segunda maior
região metropolitana do Brasil, uma área rural rica e diversa, mas bastante
invisibilizada.
"Trago para o parlamento minha luta
contra o agronegócio"
O agro se caracteriza atualmente pela
presença de empresas transnacionais que disputam o campo e as pessoas que ali
vivem e trabalham. Com a crescente mercantilização da agricultura, surgiu a
necessidade dos camponeses se organizarem. Movimentos populares do campo têm
buscado resistir a este modelo construindo outras formas de
desenvolvimento.
No Brasil, a "coincidência" do
crescimento pujante do agronegócio e, ao mesmo tempo, da fome, pintou em tela o
que sempre soubemos: é o povo do campo quem coloca alimentos na mesa. Se por um
lado, tivemos nos últimos anos cada dia mais a população passando fome, do
outro tivemos o agronegócio batendo recordes de lucro. Estamos deixando de
produzir aipim, arroz e feijão para avançar nas monoculturas de soja, milho e
cana de açúcar para a exportação.
O agronegócio é sinônimo, também, do
despovoamento como resultado do uso de agrotóxicos e de uma forte mecanização,
que prescinde da força de trabalho camponesa, expulsando-a das áreas rurais.
Gera fome, miséria e doença. O agronegócio quer aumentar a produtividade e,
para isso, sua meta é o aumento do uso de agrotóxico e transgenia.
Os transgênicos e os agrotóxicos trouxeram um
intenso e complexo debate sobre o papel da ciência, do saber e sua relação com
o os destinos da humanidade. Com isso, a disputa ideológica pelo mercado
consumidor se tornou estratégica sobre o campo da política. A imagem construída
do agronegócio, autointitulado como pop, impõe aos movimentos sociais uma
estratégia para ampliar o debate sobre a qualidade dos alimentos.
"Para nós, do MST, pop é a luta pela
terra".
Nossos objetivos, além da reforma agrária
baseada na Constituição, incluem fortalecer a agroecologia e avançar na luta
contra os agrotóxicos e em defesa da natureza. Lamentavelmente, o agro
desconsidera a cultura do campo como natureza viva ao reproduzir a lógica
mercadológica no meio ambiente e em toda a cadeia de produção alimentar,
deixando a população à mercê da fome e da subnutrição.
Defendemos a reforma agrária popular por ser
um conjunto de políticas capazes de produzir alimentos, gerar desenvolvimento,
renda, e de promover a justiça social nas áreas rurais do nosso país. Nossa
pauta precisa ser baseada na fartura, da vida, da comida, das alegrias e da
paz.
*Marina do MST é
deputada estadual do Rio de Janeiro.
Fonte
Brasil de Fato