Paraibuna e suas atividades básicas
Graças ao trânsito do Caminho Novo de Minas, o povoado de Paraibuna, já no alvorecer do século XVIII, transformara-se numa das roças mais frequentadas dentro do roteiro que ligava Vila Rica ao Rio de Janeiro
04/10/2024
Historiador Sebastião Deister
Edição 512
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Graças ao trânsito
do Caminho Novo de Minas, o povoado de Paraibuna, já no alvorecer do século
XVIII, transformara-se numa das roças mais frequentadas dentro do roteiro que
ligava Vila Rica ao Rio de Janeiro. Na realidade, Paraibuna ganhara um rápido crescimento
em função da criação, em sua área, do chamado Registro Geral, uma espécie de
alfândega da época que tinha por objetivo evitar o contrabando de ouro e pedras
preciosas que os aventureiros e ladrões recolhiam em Minas Gerais. Ao mesmo
tempo, o Registro servia para arrecadar os quintos pelo direito de passagem das
riquezas obtidas de forma legal nas cidades mineiras, como vimos na edição
anterior. Com isso, a localidade passou a atrair outros grupos de desbravadores
e ricas famílias de fazendeiros, fazendo com que o território experimentasse um
desenvolvimento bem significativo naqueles difíceis anos de ocupação do sertão
paraibano.
O Registro Geral de
Paraibuna foi instalado no ano de 1711, tendo sido construído no local um
quartel para o abrigo da Polícia Montada, a fim de que tal corporação
proporcionasse segurança total ao trânsito pelo Caminho Novo. Obviamente, com a
efetivação desse grupo de policiamento, tornou-se também necessário edificar
casas para seus vários componentes e os demais funcionários do Registro,
providência que levou o logradouro a crescer ainda mais e propiciou sua rápida
evolução no sentido de torná-lo uma vila próspera e bastante conhecida. Ressalte-se
que em Paraibuna, além dos trabalhos do Registro, verificava-se ainda, pelas
regiões montanhosas circunvizinhas, um intenso e rentável serviço de
aproveitamento de terras. Paralelamente às lavouras de milho, feijão,
cana-de-açúcar, batata, mandioca e verduras, cuidava-se, com notável êxito, do
cultivo da mamona, cujas plantações forravam vastíssimas planuras próximas ao
rio grande rio. Com efeito, a mamona constituía um produto fundamental para
todo o Vale do Paraíba, uma vez que dela extraía-se o azeite (óleo) que servia
como combustível nos candeeiros que iluminavam as casas e alguma vielas que
brotavam pelo povoado e que representava importante moeda de troca - e forte
produto de exportação - com o Rio de Janeiro e, em especial, com Vila Rica, o
que garantia mais uma boa fonte de renda para os agricultores dos roçados
cultivados às margens do Caminho Novo ou junto aos remansos dos rios da região.
Por conseguinte,
Paraibuna - entre feliz e atarefada - viu-se às voltas com a remessa de seus
apreciáveis excessos de estoques agrícolas às cidades mineiras: pesados fardos
de milho, mandioca, batata e frutos de mamoneiras, ao lado de espessas braçadas
de cana-de-açúcar, eram despachados, com grande frequência, para as Minas
Gerais que praticamente nada produziam na área agrícola em razão de sua
especialização no extrativismo mineral. Em contrapartida, as florescentes
cidades das alterosas enviavam, para o Sertão da Paraíba, parte de seu ouro e
de suas pedras preciosas, remetendo-lhe ainda, eventualmente, outros artefatos
e materiais básicos, tais como ferramentas para lavoura, calçados, roupas,
espingardas, medicamentos, munição, cobertores, selas, bridões, sal e outros.
Os lucros auferidos
com a exportação de óleo de mamona trouxeram para Paraibuna plenas condições de
um rápido crescimento, e sua facilidade de comunicação com o Rio de Janeiro e
com as povoações mineiras através do Caminho Novo ensejou a chegada de mais viajantes
curiosos, fazendeiros, mascates, posseiros, negociantes de escravos, caçadores
de índios e de peles, padres missionários, carpinteiros, pedreiros,
historiadores, sertanistas de um modo geral, famílias de comerciantes, agentes
imobiliários, militares e funcionários públicos cujos múltiplos tentáculos
abarcaram de pronto todo o Vale do Paraíba e, numa sequência colonizadora
bastante natural, as incultas áreas voltadas para as colinas do Tinguá, ao sul,
e os territórios que alicerçariam dezenas de caminhos vicinais que
proporcionariam o nascimento posterior de Paty do Alferes, Sacra Família do
Caminho Novo do Tinguá, Vassouras, Santa Cruz de Mendes, Rodeio (hoje
Engenheiro Paulo de Frontin), Nossa Senhora da Glória de Valença, Desengano
(atualmente Barão de Juparanã) e Santa Tereza (agora Rio das Flores), à parte
seus fortes reflexos para as bandas de Barra do Piraí.
Também nessa época
auspiciosa construiu-se a capela em honra de Nossa Senhora de Monte Serrat, por
ordem direta de Garcia Rodrigues Paes, bem ao lado da colossal pedra de
Paraibuna. Como era costume dos portugueses,
toda e qualquer povoação que abrigasse um expressivo número de habitantes
deveria contar com os trabalhos religiosos de sua própria ermida. Em torno
dela, então, formou-se uma leva populacional que logo fez nascer um povoado que acabou por se transformar no município
de Levy Gasparian, este um simples distrito do município de Três Rios até 23 de
dezembro de 1991, quando dele se emancipou para compor uma célula municipal
autônoma.
Mão-de-obra escrava
Os anais históricos
dão como certo que a Capela de Monte Serrat foi erguida entre os anos de 1702 e
1723, e para que a obra fosse concluída dois fatores concorreram
significativamente: a instalação definitiva do Registro de Paraibuna e a
mão-de-obra escrava que veio sustentar o crescimento de diversas fazendas
instaladas no já cobiçado Vale do rio Paraíba do Sul.
Bairro Limoeiro, em Paraíba do Sul
Torna-se válido
registrar que a consagração da capela de Nossa Senhora de Monte Serrat serviu
para alguns importantes eventos naquela área, entre eles a chegada de colonos e
viajantes que acabaram construindo casas de moradia e mesmo estabelecimentos
comerciais que, com o tempo, viriam a formar a vila local. Por outro lado, foi
a partir das terras de Monte Serrat que Garcia abriu parte do seu caminho que,
contornando a grande pedra de Paraibuna, desembocaria no hoje chamado bairro
Limoeiro, em Paraíba do Sul, ponto de acesso ao grande rio.
Em área fronteiriça
à Capela de Monte Serrat (hoje reconsagrada como Santuário) localiza-se o
notável Museu Rodoviário, criado pelo DNER e que simboliza uma época de ouro
nos transportes Rio-Minas através da Estrada União e Indústria inaugurada por
D. Pedro II em 1861, cujo acervo, infelizmente, encontra-se em estado de
lastimável abandono.
IMAGEM:
A Capela de Monte Serrat no distrito do mesmo nome, à frente da grande pedra
de Paraibuna